segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

White Lies - As I Try Not To Fall Apart

 



Oh, sim, eu percebo perfeitamente que o tipo da Comunidade Cultura e Arte, quando instado a dar respostas concretas sobre as coisas de que gostava, não tenha conseguido balbuciar mais do que um par de palavras. Eu também tendo a ficar extremamente nervoso e amnésico quando me perguntam sobre os discos que me têm caído no goto, porque ouço tanta merda que acabo por me esquecer daqueles a que achei alguma piada (a não ser que o façam via internet, porque aí sempre dá para consultar o glorioso .xls que preencho ao longo do ano). 

Claro que eu não criei um website intitulado "Comunidade Cultura e Arte", nem acho que ser uma agência publicitária glorificada por hipsters seja de alguma forma semelhante a """jornalismo cultural""", mas eu não estou aqui para rasgar na CCA. Estou aqui para rasgar no novo dos White Lies, uma banda que também tende a provocar-me amnésia. É que os confundo sempre com os White Hills, que posso ou não ter visto num Musicbox desta vida (é no que dá ir a concertos para beber cerveja). Pelo que, sempre que leio uma notícia sobre um novo álbum ou um novo single dos White Lies, estou à espera que uma qualquer descarga psicadélica de electricidade me arranque do torpor da vida mundana, ou que pelo menos me faça voltar a ouvir essa coisa a que chamam rock psicadélico. É que eu vivi entre 2010 e 2014 e rapidamente me fartei dessa merda (a culpa é dos Tame Impala. A culpa é sempre dos Tame Impala).

"As I Try Not To Fall Apart" remete-nos para um outro período, não esse, mas aquele entre 2004 e 2007, quando os Bloc Party eram a melhor banda do mundo e os Editors eram algo que, enquanto humanidade, aceitávamos. Porra, até gostávamos daquilo, independentemente da banalidade da coisa (vá, a 'Munich' é óptima, e de certeza que havia outra mão cheia de boas canções dentro daquela depressão pós-fin de siècle pós-"24 Hour Party People" pós-parto pós-ta que te pariu). Mas, amigos, já lá vão quase 20 anos: continuar a soar como tudo o que se fez então, como se a coisa ainda tivesse alguma urgência (algo que é importantíssimo no rock n' roll, e se não a conseguem detectar instantaneamente, então vocês não gostam de rock n' roll), não vos vai fazer mais novos. Apenas vai fazer de vocês aquele género de pessoas que pergunta aos sobrinhos o que é o TiqueTaque. Além do mais, qualquer banda que em pleno 2022 ainda usa como títulos das canções o verso mais entoado dentro das mesmas (os White Lies cumprem uma tríade bonita, e por bonita quero dizer bovina, com 'Am I Really Going To Die' / 'As I Try Not To Fall Apart' / 'I Don't Want To Go To Mars') está claramente a pedi-las (pá, estava a escrever isto enquanto ouvia o disco e eles VOLTAM A FAZER O MESMO na 'There Is No Cure For It', que risota do caralho). 

É por demais evidente que daqui a dois ou três anos os White Lies voltarão a lançar qualquer coisa e eu vou voltar a enganar-me. Por isso, não encarem esta publicação como uma CrÍtIcA áCiDa. É só um memofante. A idade não perdoa e o pretensiosismo também não.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Burial - Antidawn

 


Não me interpretem mal. Eu não odeio o Burial. Porra, eu adoro o Burial.

Esperem, talvez "adoro" seja uma palavra demasiado forte. Digamos que eu compreendo o Burial.

Não que seja preciso compreendê-lo para apreciar a música que ele faz. Não é como se compreender o homem, ou as suas ideias, fosse condição sine qua non para botar a tocar a 'Southern Comfort', a 'Near Dark', a 'Ashtray Wasp' ou a 'Dark Gethsemane' (mencionando apenas algumas, para não escrever, naquele estilo muito rockista, que os álbuns e os EPs devem ser escutados do início ao fim, sem paragens). 

Além do mais, como compreender um homem que, ao longo de toda a sua carreira, se tem mantido afastado não dos corredores da fama - porque nunca se poderia ser famoso a fazer a música que ele faz a não ser que houvesse uma qualquer revolução - mas das próprias noções de mediatismo e imediatismo? Como compreender um homem que num mundo onde o Instagram é um poder tem menos que uma mão cheia de fotografias suas espalhadas pela Internet? Como compreender um artista que, aparentando rejeitar a promoção do seu próprio trabalho ("aparentando", porque essa mesma rejeição acaba por agir como promoção ao seu trabalho - o Mark Fisher, dos poucos que o entrevistou, deve ter escrito qualquer coisa gira sobre o assunto), não se deixa conhecer? Quando escrevo "compreendo", é muito possível (ou, admito, inteiramente verdade) que esteja a romantizar a ideia que tenho dele: um gajo tranquilo, sem merdas, que para fugir ao ennui suburbano decidiu compor umas malhas sem preconceito ou pré-concepção, apenas e só porque lhe deu na real gana, sem se lembrar de que por boa parte do mundo ocidental alguém iria ouvi-las e pensar epá, isto faz-me sentir o que sou.

E é por isso que eu digo que compreendo o Burial. Porque ele me faz sentir o que sou: um gajo do subúrbio, não muito afastado do grande centro de decisão, de cultura, de entretenimento - a cidade -, mas afastado o suficiente para que esse centro pareça tão distante que só uma mudança radical no meu modo de vida (como, sei lá, tirar a carta - sabem o que é ser um adolescente nos subúrbios e mal esperar para poder tirar a carta só para poder ir beber copos e ver concertos à cidade?) encurtaria o espaço que vai daqui ao sonho.

Já o escrevi, noutro lado (julgo eu; se calhar disse mas não escrevi), que é preciso ter crescido no subúrbio - entidade estranha e aflita para a qual mil designações existem sem que nenhuma esteja completamente errada - para compreender realmente o Burial. E não apenas durante uma parte ínfima da nossa vida no planeta, mas mais ou menos desde a primeira ganza fumada aos 13 anos até ao primeiro estágio profissional. Mais ou menos desde o momento em que começas a fazer merda com os amigos porque não há mais metafísica no mundo que não a de fazer merda com os amigos para mostrar a toda a humanidade que estás vivo (nesse sentido, outra coisa que também costuma bater bem é o sample usado pelos Radio Dept. naquele pedacinho de magia chamado 'Never Follow Suit'). Mais ou menos desde a primeira vez que foges da bófia até ao dia em que dás por ti no último comboio da noite, depois de horas e horas a tirar notas na faculdade ou a fazer o trabalho de merda que o teu patrão não quer fazer, a olhar pela janela na direcção de todas as fábricas abandonadas, todas as paredes pichadas, todos os candeeiros fundidos que constituem a paisagem que rodeia a tua freguesia, um hotel gigante onde o pequeno-almoço é servido a correr.

Porque das poucas coisas que se sabem sobre o Burial, além do nome, que francamente não interessa - nunca ninguém lhe vai chamar William, ou Billy, ou Sr. Levan - será sempre o Burial -, é o facto de ele ter crescido no subúrbio: Londres Sul, que lá por ter "Londres" no nome não deve deixar de ser semelhante a todos os outros subúrbios de todos os outros países industrializados. Basta isso para pintar um retrato (novamente, eventualmente romantizado) do seu crescimento. Isso, e uma fotografia da escola onde andou. Isso, e esta citação de uma entrevista à Wire:

I was brought up on old jungle tunes and garage tunes that had lots of vocals in but me and my brothers loved intense, darker tunes too, I found something I could believe in [...] My brother might bring back these records that seemed really adult to me and I couldn’t believe I had 'em. It was like when you first saw Terminator or Alien when you're only little. I'd get a rush from it, I was hearing this other world...

É isto - I was hearing this other world - que torna o Burial tão identificável para quem mora no subúrbio. Moro no mesmo bairro há mais de 25 anos e provavelmente não chega à dúzia o número de concertos (falando especificamente de concertos porque eu gosto é de música, e bola, duas coisas também elas, hm, suburbanas) que vi na minha cidade. Não porque tenha ignorado os outros; mas porque simplesmente não houve mais, e dentro dessa dúzia já incluo os espetáculos pimba que todos os anos cá metem em honra do santo padroeiro. No caso concreto do Burial, foi o jungle que lhe abriu as portas, assim como no meu podia ter sido o kuduro ou a kizomba se eu nesses verdes anos estivesse mais interessado em tarraxar que em foder os ouvidos com os decibéis absurdos do metal. Para ele, o jungle não era apenas música: era uma escapatória da sua própria condição, o El Dorado que existia além das paredes carregadinhas de humidade do prédio onde (provavelmente) morava. O jungle e por arrasto as raves constituíam uma verdade que lhe era escondida pela distância.

Pelo que, ao longo de toda a carreira, o que o Burial tem tentado fazer é regressar a esses tempos em que havia uma verdade passível de ser alcançada, assim que as condições materiais fossem favoráveis. Como essa verdade já não existe - culpa da gentrificação, das dores de crescimento ou do facto de o jungle já não ser modinha como o foi durante um certo período dos anos 90 - cada malha que ele produz age como uma espécie de lamento por um ideal, ora não concretizado, ora engolido pela máquina, não só a do capital como a do tempo. Uma lágrima nostálgica por um período em que os teus amigos, os meus amigos, os amigos dele constituíam uma sociedade dentro da sociedade, e que desaparece assim que esses mesmos amigos crescem, arranjam empregos, conhecem outras pessoas, têm filhos e só te veem um par de vezes por ano.

Mas onde é que eu ia, ou onde é que eu queria ir, antes de começar a escrever esta patacoada, que é também ela uma fuga ao ennui que estava a sentir num dia suburbano, frio de inverno, depois de ter despachado trabalho mal pago?

Ia falar do "Antidawn". Que é o novo EP do Burial, ainda que com 40+ minutos mais se assemelhe a um longa-duração (e isso é outra discussão e, diga-se de passagem, é uma merda de discussão: quem é que quer saber?). E que, ao contrário de tudo o que ele já fez, não é genial. Bem, o "Rival Dealer" também não era. Mas este consegue algo que até agora a música do Burial não (me) tinha provocado: sono.

Sem dúvida que será a ausência do beat - coisa também ela romantizada e equiparada aos nossos próprios ritmos cardíacos - que leva a que "Antidawn" não seja o regresso que esperava, ainda para mais quando foi precedido por duas das melhores faixas que ele fez desde o já mítico "Untrue": a 'Chemz' e a 'Dark Gethsemane'. O problema é mesmo o sono que cinco faixas ambientais provocam, e a recusa do Burial em ser aquilo que é (aquilo que eu espero que ele seja): o gajo do subúrbio, e não o próprio subúrbio, não a antropomorfização do local onde o tempo não é parado mas, pior ainda, corre extremamente devagar, à semelhança de todas as cinco faixas aqui presentes. Se ele passa a ser o próprio espaço, se se deixa engolir, para onde é que remeteu a sua capacidade de sonhar com outros mundos? Para onde foi o ritmo das fábricas e dos carris, o que aconteceu à estrada que eventualmente o levaria ao jungle ou às raves ou a outra coisa qualquer?

Mas talvez eu esteja a ser injusto e "Antidawn" seja apenas a conclusão lógica de tudo aquilo que ele já fez, o álbum chill out no fim da rave, de forma a que as drogas que consumiste desapareçam suavemente do teu sistema e não à cacetada do dia que nasce (daí o título). Talvez tenha sido, pela primeira vez, um trabalho propositado e não, à semelhança dos outros, algo nascido da espontaneidade - de um pensamento único, de uma vontade de escapar. O que explicaria o facto de este EP ter sido precedido por uma nova fotografia do homem, boca escondida mas sorriso detectável no meio da neve.

"Antidawn", pese embora todas as suas falhas, é provavelmente o primeiro disco em que o Burial se decidiu ocultar de vez, impedindo, através da transformação total da sua paleta sonora - agora reduzida à crueza das vozes sampladas e nada mais - quaisquer romantizações passadas, salto gigante neste parkour do gato e do rato que anda a alimentar desde que assinou pela Hyperdub. O que seria, no fundo, uma jogada genial e uma chapada na tromba de todos os anormais de óculos de massa com camisolas pretas que acham que conhecem a pessoa sobre a qual escrevem.

Foda-se, afinal não compreendo o Burial. Mas adoro-o.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Tiago Silvestre - Pela Estrada Fora

 



De toda a merda que a Flor Caveira e semelhantes despejaram sobre o mundo (e foi muita, ainda que algumas coisas de lá saídas tenham despertado algum interesse), nenhuma fede tão miseravelmente quanto a ideia de que qualquer gajo pode vir a ser um músico com boa imprensa desde que cante em português e tenha as referências certas: os beats, o Bukowski, o B Fachada. Tiago Silvestre tem duas dessas referências. A outra ficou de fora, porque quem nasceu para fancaria nunca chegará a ser fachada.

Regra geral nem me daria ao trabalho de ouvir um disco que me chegasse à caixa de entrada do Gmail, com um título sacado ao Jack Kerouac - sendo que "Pela Estrada Fora" é o romance de eleição de todos os tipos com a mania que são livres e inteligentes quando não passam de alcoólicos agrobetos -, mas dei uma oportunidade a este porque calculei que fosse uma merda do caralho e, nesse sentido, não posso dizer que tenha ficado desiludido. Um dos meus cocktails musicais de eleição mistura masoquismo, schadenfreude e um sentimento de vergonha alheia. Porque esse tipo de álbuns me faz sempre rir, numa onda de como é que este gajo teve a coragem de fazer isto?

Glória eterna a Tiago Silvestre, então, por ter tido um valente par de tomates em tempos de estrogénio. "Pela Estrada Fora" não é só o pior disco que provavelmente ouviremos este ano (as melodias básicas, a voz do próprio - como se estivesse não a cantar, mas a ler, com entoações diferentes, de um qualquer teleponto), como contém provavelmente o pior verso que alguém irá escrever na língua de Camões durante muito, muito tempo: «os teus lábios aquecem como vodka neste inverno gelado», retirado a 'Baby Doll'. E atenção que eu tenho visto os directos do Bruno Nogueira. Sei bem o que são maus versos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

We Bless This Mess - Enlightened Fool

 

Quando ouço falar em "rock português" pego logo na pistola, quer esse "rock português" se refira à mediocridade que é ter o Rui Veloso ou os Xutos & Pontapés como o seu estandarte, aos pseudo-bardos lisboetas que competem entre si para ver quem utiliza a palavra menos óbvia e mais esdrúxula, ou aos expatriados que não resistem a acrescentar um sotaque ao seu oh-tão-maravilhoso-inglês. 

Bem, se calhar o que odeio mesmo é o rock, ou os portugueses. Só me falta é a pistola.

We Bless This Mess é um projecto de um expatriado, que achou por bem acrescentar uma mensagem de agradecimento ao(s) ouvinte(s), em bom inglês com sotaque tuga: «obrigado por existirem», diz ele. Obrigado é o caralho, que eu não pedi nada, e quanto mais depressa me tirarem daqui melhor - que eu sou demasiado cobarde para me suicidar.

"Enlightened Fool" é, para We Bless This Mess - em formato banda; creio que o vi a solo no Lounge quando ainda podíamos sair de casa, mas honestamente não me lembro; a abrir para Emperor X? -, uma "celebração de estarmos vivos", pelo que o título do disco faz absoluto sentido: só um pateta poderia celebrar essa merda. E, no entanto, há ali qualquer coisa escondida no emo-punk épico de pendor americano. 

Até eu, que nunca fui punk tirando nas ideias, consigo esboçar algo semelhante a um sorriso a ouvir os coros de 'Find.Unfold.Accept', e uma certa vontade em continuar nesta enorme demanda que é chegar a tempo da reforma e de insultar tudo e qualquer coisa que os jovens de então façam. Até tive de ouvir o disco duas vezes, algo expressamente proibido a um crítico de música, para o confirmar: isto é verdadeiramente decente ou, pelo menos, melhor que qualquer coisa que os tugas do eixo indie-Arroios andam a defecar há largos anos. Metam We Bless This Mess no palco de Coura (se alguma vez isso puder voltar a acontecer) e vejam a coisa a rebentar.

Jute Gyte - Diapason

 

Toda a gente sabe que o drone e o black metal andam de mãos dadas. Num minuto estás a gritar bem alto por Satanás e a gastar rios de dinheiro em material da Kiko Milano, no outro queres alinhar os teus chakras e abrir um restaurante vegan para misantropos com +3.5 dioptrias e barba pálida do vaping.

Jute Gyte, nome com o qual Adam Kalmbach assina a sua música, é um desses casos. À semelhança de tantos outros artistas dentro do black metal (e a culpa deve ser do Varg, que tem as costas largas e nunca escondeu curtir technão), Kalmbach tem a música electrónica como influência, havendo quem o compare a Aphex Twin em determinados discos que não ouvi, porque só tive paciência para o "Perdurance" e mesmo esse é uma salganhada inaudível até para quem ama noise.

Seja como for, um tipo que lança um ou dois discos por ano vai acabar por se tornar chato a dada altura - razão pela qual os King Gizzard não são assim tão bons e vocês são todos uns idiotas, e razão pela qual não há mesmo forma de defender "Diapason", que é o registo que me levou a ter vontade de escrever estas linhas. A não ser que queiram sentir a vossa sanidade mental a definhar ao longo de duas horas e meia, mantenham-se longe deste disco. Já vou no minuto 47 de um tom monótono e nunca senti tanta vontade de estoirar os miolos, nem quando me espalhei ao comprido na SportZone do Vasco da Gama, nem quando o João Félix espetou dois no Dragão. Esta música não é para duros, é mesmo para surdos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Grimes - Miss Anthropocene (Rave Edition)

Quase um ano após editar "Miss Anthropocene", a nossa traidora de classe favorita volta à carga com... uma versão "rave" desse mesmo álbum. "Rave", entre aspas, que muito provavelmente Grimes nunca foi, como toda a gente nascida pós-1991, a uma rave à séria (drogas, loucura, morte). 

Se é verdade que a coisa até começa bem - cortesia de ANNA e Richie Hawtin - o resto soçobra perante a falta de inventividade presente em cada uma das remisturas. Mas a culpa é minha, que estava à espera que um disco de remixes fosse bom. É que há duas formas de fazer a coisa: ou se mantêm fiéis ao registo original, acrescentando-lhe apenas uma tarola aqui e um bombo ali (e toda a gente fica feliz porque toda a gente ganha royalties), ou adoptam a táctica Aphex Twin, cagam no som de base, e (des?)constroem uma canção do zero (e toda a gente fica feliz porque toda a gente ganha royalties, mas ao menos passam por ÍNTEGROS). 

A culpa é d@s tip@s que assinam as remisturas, claro, mas também é da própria Grimes, que nunca na vida deveria ter dado o ok ao lançamento de um álbum "rave" numa altura em que até aquilo que hoje em dia passa por "rave" (espaços controlados, patrocínios de grandes marcas, os mesmos DJs a tocarem os mesmos BPMs) está parado porque, bem, há um vírus chato à solta. Talvez depois da vacina isto soasse menos aborrecido. Talvez Julian Bracht tivesse conseguido não assassinar a melhor malha de "Miss Anthropocene". Talvez os Modeselektor tivessem feito algo que não perturbasse o seu vasto legado de qualidade. Mas parece que nunca o saberemos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Pão com Manteiga



IMAGEM DESENVERGONHADAMENTE ROUBADA

Na passada sexta-feira a Trem Azul recebeu a festa de lançamento da Videoteca do Bodyspace. Uma noite que se veio a verificar épica, mesmo que não tenha tido a aceitação do público (a.k.a. faltaram gajas) que se desejava. Mas valeu, não só pela belíssima folha A4 colada na porta onde em Arial Black se lia FESTA PRIVADA, mas também pelos dois concertos a que se teve o privilégio de assistir à borla. Então:

Os Pão. Os Pão escolheram um nome tão OH EXPLOITABLE que por vezes esquecemos que também são músicos. Cozinham aquilo que se pode chamar de "improvisação livre" a não ser que sejamos professores na FCSH. A partir de alguma electrónica, de um saxofone e de um piano constroem um verdadeiro apocalipse, nem superado pelas imagens de vulcões que passavam ao lado. Não raras vezes me encontrei de boca aberta a engolir toda aquela arrepiante sonoridade. E decidi nunca mais gozar com o nome; sabe-se lá o que me podem fazer no futuro.

E os Sunflare. Parece que o nome se escreve em ALL CAPS mas eu não quero saber. Com eles já se sabia ao que se ia: ruído, riffalhada, gasolina bruta e inflamável que até serviu, no soundcheck, para assustar um pobre cãozito que por ali passava. São tão grandes como o astro, e o cabrão do astro entra-nos pelos tímpanos dentro - tímpanos esses que o caríssimo vocalista não me quis devolver no final - e rebenta-nos com o cérebro. São tão grandes. São tão, mas tão grandes.

Claro que tem de haver uma menção honrosa para os DJs com que se acabou a noite, que fizeram rodar malhas dos Comets On Fire até Demis Roussos, passando pela mui fantástica ideia de colocar a aberração de nome Friday, dançada por três meninas que não se quiseram identificar. O que é sempre uma pena. Mas acreditem, por detrás deste rosto de sapo está uma personalidade ainda pior de ouro. Não sejam tímidas.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A defesa é o melhor ataque



Se costumam acompanhar o Bodyspace sabem que às vezes escreve lá um tipo que diz umas coisas muito engraçadas sobre o Milhões, e tal, e que uma vez por outra escreve baboseiras sem nexo acerca de discos de que gosta. Também saberão - se estiveram atentos e/ou são stalkers, que esse mesmo tipo fez alusão a um ensaio literário que andava a escrever sobre a poesia de John Agard comparada à dub poetry. Bem, parece que, pelo menos num contexto académico, esse ensaio foi bem escrito q.b. para lhe valer uma nota consideravelmente superior à que ele estava à espera. Ainsi, visto que tal o encheu do orgulho que não costuma ter, eis o ensaio em questão disponível para a leitura que ninguém irá fazer mas quanto mais não seja para injectar alguma vida neste blog. Até porque tem a ver com música. Um bocadinho, vá.

WARNING: LONG POST AHEAD
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ALL WE DOIN’ IS DEFENDIN’:
UMA COMPARAÇÃO ENTRE A POESIA DE JOHN AGARD E A DUB POETRY

Virtude de um omnipresente sentimento colonial na sociedade britânica contemporânea e, por conseguinte, nos círculos académicos que ditam as regras do que se considera como sendo uma gramática “correcta”, o crioulo foi, durante várias décadas, posto de parte e liminarmente rejeitado enquanto linguagem de cariz próprio, salvo as excepções que se consignavam ao estudo da linguística. Embora tal situação se tenha vindo a alterar nestes últimos anos, sendo que alguns crioulos foram já reconhecidos e oficializados enquanto “língua”, ainda é visto por uma larga fatia da população como um modo de comunicação rudimentar e selvagem, sendo observado com escárnio por parte da massa popular predominantemente caucasiana e escolarizada, por contraste com os povos menos estudados das antigas colónias, nomeadamente a Jamaica, tendo sido nesta nação que se assistiu à origem, nos anos setenta, daquilo a que chamamos dub poetry; literalmente, poesia declamada sob um ritmo dub, uma corrente dos estilos de música ska e reggae nascidos na década de sessenta e que coloca uma maior ênfase na percussão e nas notas graves. A poesia dub apresentava maioritariamente um cariz político e social, com eco nos movimentos e nas lutas raciais que se haviam verificado nos Estados Unidos na década anterior e que começavam igualmente a tomar forma no Reino Unido (como nos atestam os motins de Nothing Hill, em 1976). Um dos rostos maiores da dub poetry é Linton Kwesi Johnson, cujo álbum de 1978, Dread Beat an’ Blood, capta esse sentimento de revolta da juventude negra de então, especialmente na faixa “All Wi Doin’ Is Defendin’”:

(…)
Even dough dem think dem bold,
we know dem cold like ice wid fear, an we is fire!
Choose yu weapon then, quick!
All we need is bottles an bricks an sticks.
We have fist, we have feet,
we carry dynamite in we teeth.
Send fe de riot squad, quick!
Cause we running wild, bitter like bile.
Blood will guide their way, an I say:
all we doin' is defendin',
so get ready fe war, war…
Freedom is a very fine ting.
(Dread Beat An’ Blood, 1978)

Atente-se na linguagem utilizada pelo poeta: Linton Kwesi Johnson recorre ao crioulo jamaicano tanto para estabelecer um ponto de contacto com aqueles a quem se dirige – a segunda geração de emigrantes oriundos, particularmente, das Caraíbas – como enquanto símbolo da sua própria liberdade e enquanto arma contra os grilhões da sociedade dita “branca” e “culta”. A utilização desta forma de linguagem é tida como essencial, sendo encarada sobretudo como um acto de resistência perante uma sociedade composta pelos seus ex-colonizadores. Uma temática a que John Agard alude igualmente em vários pontos da sua obra poética, como é o caso de “Listen Mr. Oxford Don”, quando escreve “I only armed with me human breath / but human breath / is a dangerous weapon” (Agard: 2009, p. 16), retirando-se, de ambos casos, que não serão só os materiais de fácil acesso (“bricks and stones”) que constituirão as armas dos revoltosos, mas também a sua cultura e especialmente a sua língua: as palavras enquanto dinamite. Nesse mesmo poema, aliás, Agard assume a sua militância, e até mesmo algum espírito de guerrilha, na defesa de uma tradição e de um modo de pensar que a nação que o acolhe rejeita. Ele próprio admite ser um mero imigrante, sem quaisquer habilitações literárias de maior, que irá no entanto marchar contra a corrente aristocrática e/ou pretensiosa que o pretende reduzir a um mero criminoso (uma designação que, saliente-se, Agard utiliza como modo de denunciar o estereótipo racista de que o negro era alvo naquele período). A sua solidariedade para com os seus irmãos de língua está patente quando escreve “Dem want me to serve time / For inciting rhyme to riot” (Agard: 2009, p. 16). Depreende-se daqui a vontade de Agard, tal como a de Linton Kwesi Johnson em “All We Doin’ Is Defendin’”, em querer que o povo se erga contra os seus opressores, ou pela via da palavra, ou através de formas mais violentas de combate; mas esta mesma violência será figurativa, ou seja, Agard e Kewsi Johnson parecem apropriar-se, um intuito quiçá sarcástico, do estigma racial de que são alvo de forma a conferir um maior tom visceral aos seus poemas e assim ir de encontro ao sentimento dos restantes emigrantes, especialmente da facção mais jovem, por norma mais propensa à causticidade.

Para melhor entender esta visão da linguagem enquanto instrumento de combate (que não está, naturalmente, consignada aos dub poets ou sequer aos poetas afro-britânicos – na própria consciência portuguesa pós-25 de Abril teremos sempre presente a célebre canção-tornada-slogan de José Mário Branco, “A Cantiga É Uma Arma”), há que primeiro entender como é que o dub e o reggae foram consagrados enquanto meio primário de afirmação da população caribenha da década de setenta. Tudo se iniciará com as migrações de jovens jamaicanos dos centros rurais para um meio urbano como Kingston, a capital do país, que resultaram na “guetização” da população levando, por sua vez, a um certo vazio cultural. Tal irá ser preenchido por um estilo de música originário desses guetos urbanos, um novo género que funde a tradição africana já presente (a ênfase na rítmica) com as novas tecnologias e modos de produção: deram-lhe o nome de reggae. Ao contrário dos estilos que o precederam, como o ska e o rocksteady, o reggae não se baseava exclusivamente no imaginário folclórico; transformou a cultura jamaicana numa cultura urbana de gueto, e exportou esse sentimento de perseguição e de revolta para o mundo, através dos seus inúmeros grupos musicais, entre os quais os Wailers e a sua mais influente figura, Bob Marley (1). Do reggae nascerá o dub; essencialmente, esta expressão designava apenas o ritmo da canção reggae, e funcionava como uma remistura. Os singles da altura continham duas versões de uma mesma canção, sendo o lado A a canção em si e o lado B uma versão sem vocais. Eram estas versões que permitiam ao DJ, o operador do sistema de som omnipresente em bailes e festas, debitar mais do que algumas palavras antes de introduzir a próxima faixa (2). Assim, o DJ não se limitava apenas a trocar discos; encontramos aqui a génese dos primeiros MCs, ou Mestres de Cerimónias, que declamavam pequenos poemas sob o ritmo que se ouvia entre uma faixa e outra e que rapidamente se tornaram no foco principal destes agrupamentos, e que serão convertidos, um pouco mais tarde, em dub poets.

Sound systems and their DJs began to rule the cultural scene of Jamaica; wherever a system was set up to play, the inhabitants of a village or city neighbourhood would congregate. The focal role played by sound systems in social communication dates from these days. (Habekost: 1993, p. 56)

Embora John Agard não seja exactamente um dub poet, na sua obra encontramos o mesmo apego musical conferido às palavras (3). Tendo chegado a Inglaterra em 1977, ano em que o reggae tinha já uma facção de apoio considerável no país e em que o punk por ele influenciado começava a eclodir, Agard construiu a sua obra poética de acordo com a mesma base cultural africana que deu origem ao estilo jamaicano; não só pelo igual uso de expressões crioulas, mas também pela forte componente rítmica interligando cada verso. Não será de todo estranho cogitar que o poeta guianense possa ter sido influenciado, até certo ponto, pela música que se fazia ouvir então. Tome-se para este efeito o seu poema “Caribbean Eye Over Yorkshire”:

Eye
perched over
adopted Yorkshire

Eye christened
in Caribbean blue
and Trinidad sunfire

Eye tuned in
to the flame
tree’s decibels

and the red
stereophonic bloom of immortelles
(…)
(Agard: 2009, p. 125)

A utilização de expressões ligadas ao som (“decibels”, “stereophonic”) sugere que o poeta está consciente da força da música num ambiente hostil ao interlocutor. Tanto no reggae como noutros géneros de música de cariz negro não é a melodia o factor principal, mas o ritmo, a percussão hipnótica; o que constatamos na poesia de Agard é uma escolha minuciosa das palavras de forma a captar a atenção do leitor e colocá-lo num transe semelhante àquele que a música predispõe. Tal como numa qualquer canção dub, o poema vai fluindo de palavra em palavra, nunca se detendo, colocando de parte a pontuação e enfatizando a repetição silábica no final de cada verso, assim como a música o faz com o beat e com os graves. Neste poema é perceptível, de igual modo, o sentimento de indefinição do autor, ao encontrar-se “um estranho em terra estranha”, nomeadamente enquanto estrangeiro em Yorkshire, o que vai levar à sua procura pessoal por uma identidade e por uma cultura que lhe permita reconhecer-se e relacionar-se com os seus semelhantes. “Eye tuned in / to the flame / tree’s decibels” demonstra o seu apreço pela cultura e pelo território africanos, aqui aludidos através de duas espécies de plantas endémicas ao continente. Este desejo de voltar às raízes ancestrais e nelas encontrar a afirmação do Homem enquanto indivíduo está patente de igual modo em muita da música reggae, sendo que neste caso há que referir a gigantesca influência do movimento rastafári e do seu cariz religioso e afrocêntrico, onde o continente é visto como o berço de toda a humanidade, e particularmente a Etiópia encarada como a terra prometida, a nova Sião; esta é uma simbologia omnipresente (4). Tome-se como exemplo o simples “Zion’s Blood”, de Lee “Scratch” Perry:

Zion blood is flowing through my veins
So I and I will never work in vain
African blood is flowing through my veins
So I and I shall never fade away
(Super Ape, 1976)

Por contraste com John Agard, aqui já Lee Perry encontrou o seu rumo enquanto ser individual. Em apenas quatro versos encontramos dois diferentes sentimentos de pertença: o primeiro, o de pertença religiosa, em que o sujeito poético, ao afirmar-se enquanto crente, definiu de igual modo o seu destino, que será o da utópica terra prometida; e o segundo, o de pertença racial, ao identificar-se como africano, sugerindo que, como tal, nunca temerá a morte, pois pertence a uma comunidade mesmo que esta ou ele próprio não se encontre no país de origem. O uso de “I and I” remete para a interligação entre o seu lado espiritual e o seu lado carnal; Perry insinua que, da mesma forma que a alma não pode existir sem o corpo, um rastafári não pode ser algo que não africano.

No entanto, Agard irá debruçar-se sobre esta temática de formas distintas. Nos seus poemas “Encounter” e “Half-Caste”, o poeta procede ao estudo deste problema sob dois pontos de vista diferentes; no primeiro poema, Agard parece adoptar esta mesma linha de pensamento, pois que comenta que cada indivíduo será identificado perante os restantes através da cor e do credo que tenha, já que para ele não são superficialidades como um hino, uma bandeira ou um passaporte que fazem de alguém aquilo que é, mas aquilo que esse alguém traz no sangue e que tem como sua tradição (5). Já em “Half-Caste”, Agard não fala da raça enquanto característica identificadora do Homem – essa vai ser, ao invés, a sua própria existência enquanto ser vivo pensante. Notamos inclusive uma quase revolta, descrita sempre em tom jocoso, pela etiquetagem de alguém enquanto “mestiço”, e o poeta faz a defesa do cruzamento entre raças e tradições várias aludindo a exemplos de diferentes formas de arte que, usualmente, são encaradas como sendo de uma riqueza e beleza incomparáveis, como as pinturas de Picasso ou as obras de Tchaikovsky, comentando que cabe aos “não-mestiços” aperceber-se dessa mesma beleza (6). Temos, assim sendo, um choque entre duas correntes de igual valor; numa é defendido que o Homem é definido pela sua ancestralidade, na outra pela sua personalidade, não existindo, entre ambas partes, qualquer espécie de entendimento. Mas esta problemática parecerá ser resolvida pelo próprio Agard:

(…)
Love calls us back from simplification.

To reduce a nation to a label
To reduce a race to an assumption
To reduce a face to a formula of black and white.

To hang a stereotype around the heart
To build a wall with stones of conviction
To let the map dictate affection.

To allow boundaries their frozen dance
To grant frontiers their fixity of expression
To make a monument of an ism.

But love calls us back from simplification.
(Agard: 2009, p. 129)

Ou seja: a discussão em torno da raça ou do credo acaba por ser irrelevante quando equiparada a um sentimento puro como o é o amor. Agard luta aqui contra o espectro redutor da etiquetagem de um indivíduo com a sua respectiva proveniência, ao mesmo tempo que apela à convivência entre todos os diferentes povos e fés – um sentimento encontrado igualmente em muita da música reggae, vindo de imediato à cabeça o clássico de Bob Marley, “One Love”. O conceito de “fronteira”, ao contrário daquilo que é verificado nos poemas dub mais militantes, que advogam o orgulho na pátria e na raça de origem e uma batalha pela aceitação (e, nalguns casos, até mesmo pela conquista) da maioria branca, adquire aqui um novo significado. Age como uma barreira que impede o ser humano de se relacionar verdadeiramente com o seu semelhante, e cuja natureza deve ser travada de modo a não se cair na simplificação do relacionamento humano, onde o passaporte fala mais do que o coração.

John Agard nunca teve uma visão única da sociedade que o rodeia, ao contrário da militância reggae que ainda faz, em diversos sectores, do rastafárianismo uma bandeira, embora nos últimos anos, com o advento do dubstep – uma forma musical em que o groove presente no dub se alia a ritmos modernos de dança e onde o lirismo tem progressivamente perdido a sua importância – essa mesma bandeira tenha vindo a perder a sua força em nome do hedonismo. Assistimos na poesia de Agard a uma evolução interessante no seu pensamento: ao mesmo tempo que demonstra o seu orgulho nas suas raízes e na sua língua materna, assume que nada disso tem qualquer importância perante a banalidade dos rótulos. E, mesmo nos seus momentos poéticos mais agitados, nunca atingiu a visceralidade de um poeta como Linton Kwesi Johnson, que fazia apelos à luta armada; Agard parece encarar essa mesma luta com um tom irónico e um forte sentido de humor. Digamos dele, então, ser um poeta à margem das margens. Porém, e até porque nenhuma temática é uma ilha, a musicalidade e o sentido lírico presente na sua obra é suficiente para que encontre o seu lugar junto de outros poetas de rua, como é o caso da vaga originária da Jamaica. Não é de todo estranho que Agard tenha encontrado a sua maior falange de apoio junto da juventude contemporânea, para quem a música é uma forma de vida e a mais acessível das formas de arte.



(1) Um sentimento que chegou até a dois outros movimentos que actua(va)m nas margens da sociedade, como o punk, atestando-o canções como “Ghetto Defendant”, dos Clash, com a participação de Allen Ginsberg – o presente chegando ao passado – e o hip-hop, que fez do gueto, praticamente durante toda a sua história, tanto uma bandeira contra a opressão das minorias como enquanto modo de afirmação individual.
(2) “The sound systems were operated by dee-jays (…) originally these had the quite restricted function of changing the records, announcing the next song, and introducing it with a few witty comments and rhymes.” (Habekost: 1993, p. 56)
(3) Algo muito melhor testemunhado assistindo a uma das suas muitas prestações ao vivo: recomenda-se para este efeito o DVD John Agard Live!, de Pamela-Robertson Pearce, 2009.
(4) Uma crença bíblica antiga, agravada pela influência de Haile Selassie I, imperador da Etiópia entre 1930 e 1974, encarado por muitas das correntes rastafári como a reencarnação de Cristo.
(5) “What makes you you / and me me? (…) Is it the anthem (…)? Is it the flag (…)? Is it the passport (…)? Or is it the baggage / of skin and creed / that makes one say / not one of us, one of them?” (Agard: 2009, p. 26)
(6) “(…) yu must come back tomorrow / wid de whole of yu eye / an de whole of yu ear / an de whole of yu mind” (Agard: 2009, p. 124)

BIBLIOGRAFIA
Activa:

AGARD, John, Alternative Anthem, Bloodaxe Books, 2009

Passiva:

HABEKOST, Chistian, Verbal Riddim: The Politics and Aesthetics of African-Caribbean Dub Poetry, Rodopi, 1993

Discos mencionados:

Poet And The Roots, Dread Beat An’ Blood, Front Line Records, 1978
The Upsetters, Super Ape, Island Records, 1976

segunda-feira, 23 de maio de 2011

25 by 25

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Findos que estão os afazeres relacionados com outras opções de vida encontro finalmente tempo (reformulo: tive sempre tempo, faltou-me é pachorra) para escrever mais um post neste blog de nome maravilhoso, já que a outra besta responsável pelo espaço não o faz e nem um nem outro temos amigos que o queiram fazer, porque moramos num gueto e a malta só gosta de trance. Adiante: estes são os vinte e cinco discos/EPs/singles que ouvi nos últimos três dias, que irei reouvir ou não nos próximos meses, e sobre os quais irei falar utilizando precisamente vinte e cinco palavras. Porque isso é cool, e este blog quer ser cool.

Carmen Miranda - The Brazilian Bombshell

Quinta-feira acordei com samba no pé, saquei, ouvi e gostei. Além disso, gajas que usam fruta tipo chapéu merecem respeito. Tico-Tico No Fubá é enorme.

Pop Dell'Arte - Free Pop

Reeditado à pala do Record Store Day, lembrei-me que nunca o tinha ouvido. Não tem Sonhos Pop mas tem um hino generacional: Juramento Sem Bandeira.

Behemoth - Sventevith (Storming Near The Baltic)

Porque o Black Metal deixou progressivamente de ser a minha vida. Deste disco retiram-se não só guitarras, mas coisas bonitas como Hell Dwells In Ice.

Shining - VII: Född Förlorare

Mesma razão, mas desapontado; o novo trabalho dos suecos é ligeiramente aborrecido. Perde-se na abrasividade, ganha-se na folk, mas não se queria ganhar na folk.

Boris - Heavy Rocks II

Quatro discos num semestre: podiam ter feito um trabalho melhor, embora não fiquemos de todo desapontados. Espero que Aileron não seja apropriada por seres abjectos.

Boris - Attention Please

Ou: Boris versão dançável. Aqui a doce Wata trata do lado vocal da coisa, e não se safa mal. Por aqui gostamos muito de J-pop.

aTelecine - A Cassette Tape Culture (Phase 3)

Disco cinzento como o segundo nome de quem o assina. Barulho e coisas industriais aos montes. Bem, já os Mão Morta desejavam um operário metalúrgico.

Alva Noto & Ryuichi Sakamoto - Summvs

Que acontece quando se junta um electricista a um pianista? A resposta é a beleza de By This River: glitch e natureza de mãos dadas.

Bon Iver - Bon Iver

...e Bon Iver desceu da montanha, fez com que o OceanoPacíficoCore passasse a ser de algum modo fixe, e regressou para a cabana do infinito.

Branches - Sonho Marítimo

Português suave. Também conhecido como chillwave. É bom, é de graça, e devem ouvir porque eu mando. Até porque no verão se gosta de chillar.

Cavalheiro - Farsas

Tem uma belíssima canção (Nós), outra que lembra coisas belas (Milhões) e duas que se ouvem bem. E também é de borla. Crise, e tal.

Deux Filles - Silence & Wisdom

Caiu-me ao colo via um blog fantástico, e é igualmente um álbum fantástico. Uma pérola escondida nos anos oitenta, destaca-se esta maravilha: The City Sleeps.

Mona - Mona

O único que voltou para a reciclagem e não ficou para contar a história. Rock FM aborrecido e desprovido de sentido. Safava-se Shooting The Moon.

Guilherme Canhão - Chiado Terrasse

Quando não está ocupado a fazer dos Sunflare uma cena arrebatadora, Guilherme Canhão faz isto: ressuscita os Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre. Que discão!

Arctic Monkeys - Suck It And See

É melhor que Humbug, e só por isso já merece crédito. Fica na cabeça à primeira audição: Reckless Serenade. Ainda pode crescer em termos gustativos.

Marianne Faithfull - Forever Faithfull...

Outra coisa que nunca tinha provado e arrependo-me liminarmente. Esta cover merece o mundo. Assim como a voz. Que coisa danada de ser tão bonita.

Niagara - Fact Mix

Já tinha lido algumas loas a estes meninos, mas só agora o pude comprovar. E são inteiramente merecidas. A mixtape cumpre o propósito: fazer mexer.

Pega Monstro - O Juno-60 Nunca Teve Fita

Os pega-monstros eram altamente. As Pega Monstro são altamente. Há aqui uma correlação. Se ainda não ouviram a genialidade de Macaco, sinto pena de vós.

Peste Noire - L'Ordure À L'État Pur

Bastou-me chegar a meio de Casse, Pêches, Fractures Et Traditions para ganhar o dia: foi a primeira vez que ouvi ska num álbum de BM.

Scott Joplin - Ragtime King

Há quem só ouça música com mais de cem anos, certamente. Agora sei de quem era aquela musiquinha que ouvia em cartoons. Obrigado pela nostalgia.

Tiny Tim - Tip-Toe Thru' The Tulips With Me

OK, isto não devia contar como uma dos 25 porque é só uma canção. Mas o blog é meu, e esta vozinha exagerada é amor.

Black Lips - Arabia Mountain

Porreiro. Apenas isso. Sem canções que se demarquem, pelo menos à primeira audição. Deve ser sobrecarga dos Black Lips portugueses (segundo dizem). A ver vamos.

J Rawls - The Hip-Hop Affect

Faltava aqui um disco de hip-hop, e essa honra coube a J Rawls. Que tem neste disco algo de muito bom, como isto: 23 MCs!

tUnE-yArDs - w h o k i l l

Coisa pop estranha. Se entranha logo se verá, para agora soa a sobrevalorização. Mas posso estar enganado, como estou habitualmente. Sou um idiota, como saberão.

Zohar - Keter

E finalmente: outra cereja no bolo. Jazz, klezmer, electrónica... aqui coube de tudo, e é tudo muito bom. Altamente recomendável. Como não gostar de judeus?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ben & Jerry's

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A habilidade que Deus não me dá no que toca a conquistar gajas exagera-a no que toca a passar horas a fazer ponta no Facebook. Tem os seus prós e os seus contras; ainda não comecei um ensaio que tenho de escrever mas ganhei um bilhete para ir ver o concerto de hoje do Ben Frost ao Maria Matos. Ela por ela, portanto. No dia em que uns celebram a liberdade e outros choram porque a ponte não tem o nome do monte de merda, o islandês veio a Lisboa para um belo concerto onde o ruído foi a palavra de ordem. Mais o medo: partes mais silenciosas que eram cortadas com um estrondo (até as paredes tremeram).

Medo que tive antes do concerto, pois como é sabido eu não costumo ter muita sorte no que toca a gigs de música mais virada para o ambiente. Felizmente que o senhor em nenhum momento foi uma seca; ora no piano, ora na guitarra - que quando soava era completamente do Black Metal que o inspira - ora no laptop (Mac, naturalmente) com que ia construindo a sua música. Concerto que falha pela pouca duração, hora e vinte se não me engano, mas que terminou com um troar imenso que levou ao arrepio na espinha e nos tímpanos dos presentes. Para quem conhecia pouco (como esta excelência que escreve) foi excelente. E ganhei inclusive o CD do By The Throat para juntar à colecção. Fuck yeah!

...não que me sirva de muito, continuarei sozinho para sempre ;_;

terça-feira, 19 de abril de 2011

Costa da Caparica

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Olá, management das Best Coast. Tudo bem convosco? A viagem desde Coachella foi dura? Não vos deixaram entrar com a erva no avião? Espero que tenham curtido e descansado q.b.. BTW, aquela cena com a acreditação é na boa. A sério. Sem stress. Vinte euros não são nada, aturar dezenas e dezenas de hipsters com óculos maiores do que a cara e bigodes à mosqueteiro não me causa celeuma nenhuma. Ah, e o concerto foi porreiro. Mesmo que mal se ouvisse a voz da Bethany, trocada por rasgos estúpidos e absurdos de feedback. Mas hey, eu até gosto de feedback. Além disso é essencial para a popzinha lo-fi da moçoila, n'est ce pas? Tudo tranquilo entre nós. A sério.

Se calhar, até vocês já sabiam assim mais ou menos o que se ia passar, por isso é que lá haviam tão poucos bros com câmeras a sério. Não as miúdas a quem quase estive para queimar os sovacos a ver se largavam o caralho do telemóvel, aqueles com mochilas e aparelhos de qualidade. Confesso que estranhei um bocado quando o guitarrista (ou a guitarrista, eu julgo ser um homem, mas cá ao fundo parecia uma gaja mesmo muito feia) secundário fez uma cara meio de nojo durante o soundcheck, mas hey, vocês sabem o que estão a fazer. No biggie. Mesmo que com os Iconoclasts ou lá o que é (que são tugas e até são bonzitos, ainda que exagerem um bocado - vá lá, xavala, headbanging com uma pandeireta?) o som não tenha estado uma merda. Na boa. Venham mais vezes.

E ela tocou a Boyfriend! Que é, tipo, a melhor canção de sempre, que até mete os gajos que não são gays a cantar e a desejar por um namorado. E por falar em namorados, onde anda o da Bethinha? Podia ter dado um pulinho aqui ao burgo, ao menos com ele ficava-se surdo, sim, mas ter-se-ia visto um concerto minimamente decente. Porque sejamos sinceros: foi uma merda. Mas pronto, não pode correr tudo bem, assim como não correu bem ao cérebro dos newfags que levaram o cartaz a perguntar pelo Snacks. (O gato não gosta de voar, parece.) Mas para a próxima há-de correr melhor! Eu confio inteiramente no vosso trabalho. Peace out.






























































Filhos da puta.

quinta-feira, 31 de março de 2011

It means I'd like to see your underwear



SE CALHAR DEVIA POSTAR MAIS CENAS NESTE BLOG LOL

Gosto de anime. Desde puto que gosto de anime. Poder-se-á argumentar que ainda sou um puto pelo menos na mentalidade. True dat. Seja como for; já não ligo tanto como ligava dantes. Sinal de maturidade? Nah, sinal de ADD. Poucas séries me puxam hoje em dia e no que concerne ao que vem do Japão prefiro ler em vez de ver. Mas no último semestre houve algo que puxou: Panty & Stocking with Garterbelt. Powerpuff Girls meets Ren & Stimpy. Carradas de innuendo sexual, porrada, humor nojento, e, o ponto que me leva a actualizar finalmente este blog, a banda-sonora, que é do caraças.

Electro house fofinho, malhões rock sintetizados, WOB WOB WOB à lá dubstep e autotune everywhere; a banda-sonora tem de tudo. Os melhores momentos são precisamente os da electrónica dançável, especialmente aquela que qualquer fã irá dizer OMG MELHOR MÚSICA DA SÉRIE POR CAUSA DA CENA DA TRANSFORMAÇÃO QUE É UMA PARÓDIA DA SAILOR MOON (não que eu alguma vez tenha visto Sailor Moon pois possuo um par de testículos), que é um remix do sr. TeddyLoid para um tema chillout que eu não conhecia e de cujo nome também já não me lembro mas não interessa; Fly Me Away é, de facto, grande.

Mas há mais; há o sambinha de Pantscada, capaz de fazer abanar qualquer gordo, há Dancefloor Orgy do mesmo senhor de quem se falou ali em cima, e naturalmente o vídeo de D City Rock ('bora lá encontrar o Wally, perdão, todas as referências), docinho j-pop com letra e refrão tão ridículos quanto infecciosos. E depois o piano muito nineties de EPTM, o house fantástico de Cherryboy Riot, a pop suave de Chocolat... e já estou a falar demais, vejam o raio da série, e acima de tudo, saquem o disco, esqueçam os links do youtube e ouçam sem medos; esta banda-sonora foi mesmo um dos bons lançamentos do ano passado. Tem canções porreiras, outras menos porreiras (Theme For Scanty & Knee Socks parece um mau remix de uma canção dos Backstreet Boys), gajas japonesas a gemer sob um ritmo funk e o interesse mínimo para fãs do estilo e/ou DJs que queiram armar-se em parvos/cultos/weeaboos. Eu pelo menos curti bué, e sou Deus. Razão mais que suficiente para irem sacar, porque a minha opinião é superior à vossa. Haters gonna hate.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Não vos gramo



Falar mal dos Grammys é a mesma coisa que maldizer o Natal e o dia dos namorados. As facções dividem-se entre os que sentem de facto a cena e os que se estão a cagar mas têm a necessidade de mandar o seu bitaite. Nós, orgulhosamente, pertencemos à segunda espécie. Porque a verdade é que, ano após ano, os cabrões de parasitas que se agarram à indústria com unhas e dentes, vociferando que a música está morta quando os tempos em que vivemos são belos, ecléticos e finalmente democráticos, fazem por merecê-lo. Isto não tem nada a ver com ser anti-mainstream. É o constatar de um simples facto: corporate machines have no taste. O que lhes vale é a existência de micos de circo em todas as galas, o que impede que se discuta de forma séria e equilibrada as nomeações e os vencedores. QUE É ALGO QUE NÃO VAMOS FAZER:

1) Barbra Streisand e os Ramones

Barbra Streisand é o diabo em pessoa, é uma velha imbecil, a voz irrita-me profundamente e perdeu o combate com o Robert Smith (old TV references FTW). Ganhou o prémio de "pessoa do ano" para a bonita organização que é a MusiCares. Não sei para que raio serve este prémio, mas não podia perder a oportunidade de mostrar o meu desagrado por ter sido atribuído à bruxa má do oeste, na mesma noite em que a supercalifragilística Julie Andrews ganhou o outro grammy que se dá a velhos ao lado dos Ramones. Numa altura em que Blitzkrieg Bop parece ter renascido para as vozes dos punk rockers de todo o mundo (ou pelo menos para as dos Fucked Up e dos Japanther), o prémio é mais do que merecido.

2) Os Arcade Fire

É talvez sintomático que o registo mais fraco dos Arcade Fire até ao momento tenha sido aquele que venceu o prémio para álbum do ano. Não que a concorrência fosse forte (lol, depositar esperanças nas nomeações), mas soa mais a uma tentativa do establishment de mostrar que também são fixes e alternativos. Também se poderá argumentar que os Arcade Fire não são menos passíveis de passar na MTV que o Eminem ou a Katy Perry, o que é a bem dizer verdade. Vá lá, já toda a gente deve conhecer a Wake Up, assim como toda a gente conhece aquela música fixe do anúncio da Peugeot.

3) Os nomeados/vencedores da categoria de dança

Rihanna é merda. Odeio tudo o que a moça faz, desde o caralho da Umbrella à xaropada Pós-Eurodance de Don't Stop The Music acabando no mais irritante dueto da última década com "o melhor rapper branco de sempre, porque os Beastie Boys fazem piadas porcas, não conta". Até as fotos dela nua, que normalmente me causariam uma enorme erecção (miúdas do Caribe é fetiche) não mais puxaram do que o vómito. Que tenha ganho o prémio para melhor canção, portanto, é motivo para terminar desidratado num hospital. A puta da concorrência causou inveja a Al Gore: Blondie reciclada, synthpop chata e reciclada, Ma(er)donna reciclada. A synthpop levou a melhor no prémio para melhor álbum, o que também não causa qualquer espécie de estranheza: os Chemical Brothers e os Groove Armada não são concorrentes, são cadáveres.

4) Os nomeados/vencedores da categoria rock

O rock não está morto. Moribundo, talvez. Que está a ser cruelmente torturado ninguém duvida. O Ted Kaczynski em mim quer acreditar que é tudo um plano da máquina para nos estupidificar a todos com o seu exército de pop electrónica e bonecas Barbie sem emoções, apenas seios. Para o alcançar, começam por atingir a credibilidade da instituição. De nenhuma outra forma se aceita que a melhor prestação rock de um artista solo tenha sido vencida por UMA CANÇÃO COM QUARENTA ANOS. Ninguém está a pôr em causa a pujança da canção. Mas a sério: em 2009/2010 não houve nada de interessante no rock? O ressuscitado Neil Young não merecia muito mais que o último Beatle que interessa? O Eric Clapton não é um chato de merda? Resta congratularmo-nos pela vitória de Tighten Up, dos Black Keys, na categoria duo. Só que a ténue réstia de esperança que teríamos é sobejamente trucidada pela vitória dos absurdamente aborrecidos Them Crooked Vultures na melhor prestação Hard Rock, pela vitória dos escorregadios Iron Maiden na categoria de métau e pela vitória - a.k.a. o momento mais WTF desta gala - dos Muse pelo melhor álbum rock. Aparentemente, nem o Le Noise nem o Brothers seriam melhores candidatos a álbum rock do ano, que é como quem diz, melhores candidatos a derreter-nos a pele da cara e a furar-nos os tímpanos do que aqueles teclados bué do prog, e o Matthew é um guitarrista do cê érre éle, tás a ver? O rock não está morto. É apenas o novo Cristo.

5) Notas soltas

A segunda vitória dos Black Keys, na categoria de melhor álbum alternativo. Confesso que estive certo de que o atribuíssem aos AF (e eis aqui uma das muitas incoerências desta organização). Os Vampire Weekend, que também o mereceriam, ficam-se pela nomeação, o que já não é de todo mau. Ao menos não ganharam os chatos dos Band of Horses. Triste pela derrota de Miss Janelle Monáe, mas Fuck You! é uma canção com o peso do autor: enorme. A tristeza é ultrapassada pela raiva: Usher melhor que The ArchAndroid?Não percebo o hype criado à volta de John Legend: o homem é aborrecido. Eminem ganha prémio de melhor tema solo e melhor álbum rap porque, lol, os pretos não podem ganhar tudo. On To The Next One não é superior a Shutterbugg, Empire State Of Mind era vitória previsível. Haver uma categoria de melhor álbum New Age é algo que me fascina e repulsa em medidas iguais. Não percebo um caralho de jazz ou gospel, não sabia que o Sérgio Mendes ainda estava vivo, não os vi mas um musical do American Idiot ganhar um prémio e um do Fela não repulsa-me a 100%, os prémios para melhor vídeo não me dizem nada mas se não tem nada dos Black Keys é merda. E agora, guardar a azia até ao ano que vem.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Deus é bom e é drogado



A promessa: stoner puro e duro, riffs a navegar por cima das nossas cabeças e cânticos roubados aos Tibetanos. A premissa: God Is Good, quarto disco dos Om, banda que veio preencher a lacuna aberta pelo fim dos Sleep. A preguiça: noite de Domingo, frio do caralho, no bitches in the premises (porque, lol, o gajedo que interessa não curte metal). Mas lá fomos, quer dizer eu, e foi bom, quer dizer awesome; e, como de costume, doem-me as pernas de fazer 6km ida-volta entre Sta. Apolónia e a ZdB porque sou ideologicamente contra o metropolitano. Mas anyway:

Gabriel Ferrandini é baterista. É um baterista do caraças. Faz coisas à bateria que eu julgava não serem possíveis. É um dínamo vivo, um Bonham se Bonham fosse só mito e não homem, uma descarga imensa de percussão e chinfrineira. É também chato como o caralho. A sério: expliquem-me a ideia por detrás de "tipo sozinho a mandar solos". Eu sou um gajo que ouve e adora coisas bastante estranhas, mas um gajo sozinho a bater uma pívea à bateria não é bem a minha cena. Admito que em disco soe melhor. Deve ser a síndrome Tangerine (se ainda não sabem o que isto é é porque não lêem o blog com atenção. Não vos culpo, though. É só merda aqui).

Depois há os Om. Que também têm um baterista. Mas este, este já faz qualquer coisa. A puta de precisão rítmica aliada à guitarra ganzada do Al Cisneros e à... pandeireta do Rob Lowe é assim uma espécie de qualquer coisa. Os cerca de duzentos ou talvez mais, não sei contar, de headbangers que encheram o Aquário sabem bem do que falo. E se a princípio as quebras constantes entre canções para afinações davam cabo da vibe, foi nos últimos dois temas (não sei quais foram, sou um hipster, não decoro o raio dos nomes das faixas mas tinha uma onda meio Pink Floyd circa Set The Controls For The Heart Of The Sun) que tudo nos apareceu tão belo quanto uma alucinação e tão pesado quanto um tubarão grávido. Estou desapontado é com a trupe de negro: ninguém levou ganza, meninos de merda?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Florence Nightingale



Agora que entrámos verdadeiramente em 2011 já podemos começar a falar de música e de todos os álbuns e concertos absurdamente fantásticos que vamos encontrar ao longo dos próximos meses. A temporada iniciou-se esta noite no Maria Matos com o(s) Nurse With Wound, projecto essencial daquilo que um dia pessoas não-relacionadas com a Lisnave decidiram chamar música industrial. Basicamente: foi daqueles concertos em que quem lá está vai pelo cred.

O motivo era o de sempre: apresentar uma obra ao vivo. Mas não uma obra qualquer. Esta era a apresentação de Soliloquy For Lilith, datado de 1988 e construído a partir de um acidente cuja natureza poderão saber no link para a Wikipedia ali deixado, um pouco como se fosse um disco criado só com theremin, instrumento esse que é a melhor coisa alguma vez saída da Rússia a seguir aos tempos em que as t.A.T.u eram relevantes e lésbicas e de que até o Lenine gostava. O álbum, esse, contém pouco mais de hora e meia de feedback e drone e é altamente aconselhável à malta dos ácidos.

Não foi porém dessa forma que Stapleton (a.k.a. Nurse With Wound e orgulhoso dono de uma cartola) o decidiu mostrar ao grupo de hipsters à minha frente com camisolas de Joy Division e Burzum mundo: acompanhado dos Blind Cave Salamander, que não sei quem são mas um deles é gordo, deu uma nova roupagem aos seis temas que compõem Soliloquy... adicionando um violoncelo e duas guitarras, juntamente com uma coisa que o gordo aforementioned tocava que eu não consegui discernir o que era mas que era o único ponto de interesse do concerto. Porque, sim, numa escala Pitchfork foi um concerto 10/10, super far out e altamente experimentalounderground e mal posso esperar para actualizar o meu last.fm, mas, na chamada escala popular, foi aquilo a que coloquialmente se chama uma seca do caralho. Mas eu já devia ter calculado que projectos de música ambiente ao vivo não são comigo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Paus Enormes



Pós-kuduro, diz um idiota qualquer no Last.fm. A verdade é que não interessa para nada. Mesmo que tenha sido na Enchufada dos Buraka Som Sistema que É Uma Água se afirmou como um dos grandes lançamentos de 2010, é redutor encarar a música dos PAUS como "dançável", ou "pesada", ou "espacial"; mesmo que hoje, no Lux, os acompanhassem Ride e Riot, respectivamente menino bonito da electrónica tuga actual e rosto por detrás da infecção Yah! e Kalemba, mesmo que tenham adicionado ritmo ao ritmo numa mistura inacreditável de Lightning Bolt e grime e dubstep e foda-se-sabe-se-lá-o-que-mais, com resultados arrasadores para o solo daquele espaço que tremeu sob a força da estratosfera a cair-nos em cima quando Mudo e Surdo deu ares da sua graça; a tentativa de caracterizar e agrupar uma coisa assim nunca será por via da palavra, pois não existe para já nenhuma que o consiga.

É para dançar, dizem uns, é para o mosh, dizem outros. A verdade é que não interessa para nada. Cada qual há-de encarar a sonoridade dos PAUS como bem lhe aprouver, seja ele filho do pulo electrónico em óptica de clube ou o metaleiro que encontra na fúria da siamesa a salvação de uma década atípica em que todos os grandes ídolos parecem ter envelhecido. O teclado permite-nos sonhar, o baixo permite-nos abanar o corpo, a/s bateria/s permite/m-nos partir o pescoço e as máquinas fotográficas aos tipos que apenas ali estão a querer fazer o seu trabalho. É água? É um rio que corre dentro das margens que o oprime.

É o melhor lançamento português do ano, é um diamante ainda por lapidar. A verdade é que não interessa para nada. Nunca ninguém há-de ficar indiferente; ou se gosta ou se ama. Ou pela força das canções ao vivo (infinitamente superior à força em disco, porque um CD é um CD e Steve Albini não está disponível de momento), ou pelo grito quase mantra de tens-me pela garganta, quem sufoca não canta que enche o Lux de uma certeza única: a de que aquilo que aqui está é algo que nós enquanto nação amante de música nos devemos orgulhar. Porque o caminho a percorrer ainda é longo, muito longo, e todos nós somos jovens, muito jovens. Que vontade de crescer depressa, esta.

A verdade, a de que os PAUS são os PAUS e nada mais, é que não interessa para mesmo nada.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SOL SOL SOL SOL SOL SOL SOL



Dan Snaith é um matemático. Nota-se pelo minucioso tratamento que dá ao Korg e à caixa de efeitos. Nota-se na energia filhadaputa do baterista que o acompanha como um metrónomo bem oleado. Nota-se nos números imaginários vulgo os outros dois gajos lá no fundo a tapar mais ou menos as fractais psicadélicas que vão surgindo. Nota-se quando, ao começar com Kaili, faz com que toda a gente de imediato desprenda os pés do chão e ceda o corpo às ondas de choque que se fazem sentir, o Lux a tremer como se num enorme terramoto, oito ponto dois à escala de Caribou.

Porque é de Caribou que se fala: do brilhante Swim, editado este ano, de temas como Found Out ou Bowls, do clássico instantâneo que foi/é Melody Day ou do imenso gingar drogado ali a inventar o Kanuckrock porque é fixe dar novos nomes às coisas de Sun, transformada em dez colossais minutos de dança e headbanging; foi o concerto que fechou o ano para os Caribou, foi o concerto que faltava a este ano onde tantas coisas boas passaram por cá. O sol quando nasce é realmente para todos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

We're all fucked up, so whacha wanna do



Há males que vêm por bem; se a visita do Moisés negro impediu que os Arcade Fire pudessem vir espalhar o amor, os Fucked Up, que também são canadianos, espalharam a semente; mandaram foder os azares da vida e marcaram, não um, mas dois concertos exclusivos em Lisboa e Porto como que a pedir desculpa por aquilo de que não têm culpa. Bendita a hora: milhões de vezes a ZdB do que o Pavilhão Atlântico no que toca a albergar concertos de rock n' roll fodido. No aquário, cheio de gente mais ou menos desnuda, incluindo o próprio Damien Abraham, que é gordo e punk dos sete pneus, os Arcade Fire não passaram de um sonho passageiro; bastaram os primeiros acordes de "Son The Father" para deitar a casa abaixo e fazer temer pelo vidro partido não se sabe muito bem quando.

Antes disso Mr. Miyagi deu uma aula de karate aos presentes apresentando um hardcore a fugir para o grind, sem guturais mas com muitos gritos e putos de flanela e t-shirts pretas a saltaram de e para o palco. São quatro gajos do norte, com ar de quem dariam bons genros mas com a electricidade a correr na ponta dos dedos. E da gaita. Isto já não saberei. São um bocadito aborrecidos, mas a malta curte e a gente está lá é para curtir. Houve pedidos para tocarem "aquela" e tudo.

Os Fucked Up são os legítimos herdeiros dos Black Flag. Isto é um exagero do caralho, mas ocorreu-se-me dizer isto no regresso a casa à cara-metade deste blog só para o picar por não ter ido. A baixista é arraçada de portugueses e veste-se como uma avó, a.k.a. ia lá com tudo. Damien corre pelo local munido do microfone, abraça quem encontra à frente, placa quem encontra à frente, grita com quem encontra à frente, exibe-se (mas só o tronco) a quem encontra à frente. O rock é pesado, com tendências para o frito (ele até dizia estar ligeiramente apanhado, se é que me entendem). Estranhamente, as maiores intervenções por parte do público - que no entanto nunca se cansou dos empurrões e cotoveladas - surgem nas covers de Breed, dos Nirvana, e do hino generacional que é a Blitzkrieg Bop dos Ramones. Isto será sintomático de muita coisa, mas não me apetece dissertar sobre isso. Foi do caralho, fiquei com a setlist (sim, é essa coisa aí em cima!) e quero que vocês se fodam. Como a banda apela a que façam.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dores de dentes



Nos dias que antecederam o concerto dos Faust, quem andou nas bocas de quem aguardava impacientemente pela noite de hoje foi Julian Cope. Por ter dito, no ido Krautrocksampler, de 1995, que "não havia grupo mais mítico que os Faust". Absolutamente normal, então, que quiséssemos confirmar esse testemunho.

Comecemos por dizer que os Faust não são uma banda. São uma sociedade. Uma sociedade caótica, despojada da sua civilização, onde estranhos seres despejam bílis fermentada em forma ténue de canção pop/rock. Antes de entrarmos por caminhos etimológicos de almas vendidas a Satã, convém dizer que "Faust" é alemão para "punho". Esse mesmo reproduzido na sua forma mais crua, óssea, em vários discos dos alemães. Esse mesmo, que à primeira visão do palco onde baterias à base de bidões nos atinge no rosto de uma forma que não esperaríamos, não enquanto não houvesse um som no ar.

A introdução é feita na voz de Tiago Gomes, um apelo à "urgência pela liberdade", um assegurar de que o público estaria autorizado a tudo, fosse "tudo" filmar, fotografar ou dançar, e um convite para uma salutar convivência com os membros da banda posterior ao concerto, antes de enveredar por uma história qualquer sobre mulheres em restaurantes, que não interessa para nada: todos os olhos já estavam postos naquele estranho casal de gigante e anão que se entretinham cada qual na sua bateria a marcar o ritmo. Prontamente entramos no mundo dos Faust, essa monstruosidade tribal e eléctrica, olhos no primitivo e no moderno.

Se durante os primeiros temas parecia mal ficar sentado perante a avalanche rock n' roll, a introdução de um momento spoken word com acompanhamento de pintura fê-lo esquecer por uns momentos - e chegou a arrepiar. O medo perdeu-se em J'ai Mal Aux Dents, que a meio se transformou em Shempal Buddha, virtude da anedota já várias vezes contada envolvendo um fã norte-americano.

Arriscamos dizer: se no mundo reinasse a anarquia, todas as bandas seriam como os Faust. E maravilhoso seria falar da música escondida numa betoneira, no cair de pedras sobre o palco ou nas faíscas que saltavam do metal. Mas também haveria espaço para as guitarras, e não existiriam problemas no PA - bem gritou James Johnston, mas play it fucking loud! foi algo que faltou. Mas não faltou nem um alegre membro do público a dançar nestas altercações psicadélico-industriais nem o autor da frase anterior; uma versão (se é que se pode apelidar de tal) de A Hard Rain's A-Gonna Fall com acompanhamento de berbequim serviu de entrada a Krautrock, a tal canção que definiu o género que definiu a canção, antes dos Faust saírem do palco e regressarem para o merecido e ansiado encore, terminando finalmente o concerto com a minimalista Mamie Is Blue. Que dizer, então, depois desta experiência? Nada. Aplaudir de pé, como o fizeram os muitos presentes no Maria Matos. Não será todos os dias, nem sequer anos, que teremos outra oportunidade destas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ninja Sardine



Para quem não sabe, a Ninja Tune faz vinte anos. E o que é a Ninja Tune? Bem, nada mais nada menos que a editora que deu ao mundo o hip-hop cerebral de Amon Tobin ou os grandes Cinematic Orchestra. E porque é que é importante falar hoje da Ninja Tune? Porque fazem 20 anos, estúpido do caralho, não leste a primeira frase? Adiante: qual Jesus Cristo no 25/12, a editora decidiu dar-nos a nós, pobres ouvintes sedentos, um tratado de tudo o que representam na cena electrónica actual: uma compilação de sete horas (não é para meninos) onde artistas tão diversos como Diplo, Roots Manuva, Bonobo, os dois mencionados anteriormente, Jaga Jazzist ou Zomby emprestam algumas das suas melhores mixes e faixas exclusivas em jeito de festa. Hip e Trip, dancehall, dub, acid, pimba, vem lá tudo representado. É só escolher.

Agora era a parte em que eu recomendava faixas individuais para dar um gostinho da coisa, mas que se foda: ouçam tudo. TUDO. Todos os seis discos. De preferência em volume invulgarmente alto, para darem também a conhecer aos vizinhos (ou partir-lhes os vidros e os tímpanos com o p-o-d-e-r daqueles graves). Não se esqueçam de enrolar uns quantos em jeito de sacrifício ao Deus do beat. Obviamente que um bombom destes é coisa para custar um balúrdio, mas para isso é que existe a internet, amirite? No blog mais famoso do mundo. Googlem. Não digo mais nada, porque tenho príncipios morais.