quarta-feira, 21 de abril de 2010

Nerdy is Cool




Melhor coisa a sair de França desde os malditos croissants com chocolate (desculpem Justice, mas as verdades são para ser ditas, mesmo que vindas de prostitutas musicais), os Daft Punk foram para muitos a primeira ponte para música electrónica, de dança, chamem-lhe o que quiserem. Munidos de um funky feeling de apelo global, que parece ser característica dos conjuntos franceses [Deve ser da comida. Ou das raparigas devassas. De certeza.], foram conquistando o mainstream, com um som que tanto cheira a fins de tarde na solarenga Riviera, como ao betão e cimento dos "feios, sujos e maus" subúrbios parisienses. Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter são apologistas da conquista do mundo pela música e não pelo look ou pela presença incessante nos meios de comunicação (we’re looking at you, pop divas). Não lhes interessa ser estrelas. Só querem ser artistes. Money and Ho’s não é bem a cena deles.

Importante para esta conquista do mainstream está a excelente utilização da arte do videoclip. Seja a série de vídeos baseados num anime ou o vídeo realizado por Michel Gondry onde as mais variadas coreografias dão vida ao ritmo, os videoclips ajudaram a cimentar uma posição de culto dos dois DJ’s.

Os homens de capacete tornaram-se assim figuras incontornáveis do mundo da música, faces (ou máscaras?) do french house, saltando o apelo do género e tornando-se num dos mais interessantes conjuntos musicais do mundo. Discovery ou Human After All são discos que no proximo século continuarão a ser referidos. Around the World, Digital Love ou Harder, Better, Faster, Stronger são daquelas músicas que daqui a uns anos não vou ter vergonha de admitir que fiquei viciado à primeira audição. E isso é raro (normalmente é merda, e da grossa). Eles são aquela miúda nerd que está no meio do dancefloor. Todos sabemos que é nerd, até ela mesma, mas ali, no meio de tudo e todos, a dançar, torna-se larger than life, um ser intocável e de sex appeal herculeano. E isso é cool, mas tão cool. É isso que os descreve: coolness em estado nerd.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sistemático



Isto já foi dito inúmeras vezes: a internet veio acabar com o monopólio da música. Disseminou-a. Não existe um artista que fale pela geração inteira, como os Beatles ou os Nirvana (há quem diga que a Lady Gaga anda lá perto, mas foda-se). E de toda a parte ouvem-se vozes contra, nas revistas de ocasião lê-se que esta década foi miserável, hipsters dos quatro cantos pululam de cena em cena à procura da nova coisa fixe.

Mas desde quando é que isto é uma coisa má?

Hoje temos acesso às bandas de psych-rock mais recônditas do Cambodja. O nosso vizinho de cima tornou-se uma sensação no youtube. O vinil voltou à vida, qual zombie. Para quem gosta ou diz gostar de música, não devia haver nada mais do que a excitação, a alegria de novas descobertas. Uma era em que a palavra "alternativa" quer dizer realmente alguma coisa e não apenas caracterizar os Sonic Youth. E, neste critério de que tudo existe e está aqui ao nosso lado, há que dar mérito às bandas que superam expectativas. A par dos Arcade Fire, os LCD Soundsystem são talvez a banda que mais marcou a década e definiu a nova tendência electrónica: a nostalgia pelo disco-sound e pelo funk, a certeza de que o rock não dista tanto do techno como se possa pensar.

O novo álbum é também o último. Poder-se-à falar do fim de um ciclo? Podemos dizer que nada será como dantes, visto que "nada é como dantes" desde que o Napster fechou portas? Só o futuro e a Pitchfork o saberão. Para já, há que ouvir a despedida solene de You Wanted A Hit, a contagiante Pow Pow e o manifesto punk o plágio descarado de Drunk Girls a White Light/White Heat. Eu por mim agradeço ao Sr. James Murphy por tudo o que ele trouxe. Sem qualquer tipo de mágoa. Porque uma banda não se faz grande dos discos que vende ou dos fãs que tem, mas das memórias que acarreta. Also, estou bêbado e deviam ignorar esta última frase lamechas. O álbum tá do caralho. E só.

domingo, 11 de abril de 2010

Let's Go Triple



A Casa da Música faz cinco anos. Tem representado um papel importante na vida cultural do Porto (e do país): inúmeros concertos de artistas (recém) firmados, exposições, diálogos. Há que saudar a sua ainda parca longevidade. Há que criticar o aspecto; o edifício é feio p'ra caralho. Mas pronto, é muy vanguarda e pós-moderno e todas essas expressões de estudantes de arquitectura pretensiosos. Não é apenas um calhau em cima de uma ribanceira. É uma ideia. Uma má ideia, mas uma ideia nonetheless.

É sintomático que os dois principais concertos de ontem tenham sido realizados na cidade que deu ao mundo o vinho que quanto mais envelhece, melhor. É o que se pode dizer tanto de Dick Dale como dos Sonics: a garra, a energia, os gritos histéricos rock n' roll continuam lá. E mesmo com um ou outro problema de som menos grave, pôde-se sair de lá com a confiança de que quem não foi, vai arrepender-se de não ter ido. O mais provável é que não surja outra oportunidade tão cedo.

Fale-se então de Dick Dale. Já toda a gente sabe da história do Pulp Fiction, por isso não vamos por aí. Pioneiro do som surf, inspiração dos Beach Boys, reinventou a Fender. Nada disto interessa a quem não escreve na Wikipedia. Qualquer pessoa que tenha lá estado (e para o ver, eram mesmo muitos - em Sonics morreu um pouco) para ver o primeiro riff ter-se-à apercebido de imediato: estava ali uma lenda viva, um Deus, um ser inatingível com dedos mágicos. Nenhuma destas descrições é exagero. O homem mal precisava tocar na guitarra; parecia ter vida própria. Muito barulho, muita classe, muita interacção com o público e com a banda (OMFG ELE TOCOU O BAIXO DO OUTRO TIPO COM BAQUETAS QUE AWESOME), tocou clássicos, tocou versões, tocou a Misirlou. Avôzinho, volta mais vezes enquanto puderes.

Seguiram-se os Sonics, senhores em plena crise de meia idade. Vi no baixista, gordo e atarracado, o meu próprio futuro. Pelo menos no que concerne à forma física. Foram quem mais problemas teve com o som - mal se ouviu o saxofone, e o teclado só ia aparecendo a espaços - mas não impediu que dessem no geral um bom concerto. Tocaram uma muito aclamada pelo público (que pareceu ter lá ido só para a ouvir) Strychnine, mas há que registar também Psycho, as versões de Dirty Robber, Have Love Will Travel, e ainda uma de Louie Louie que pôs toda a gente na sala a pular. Foram umas doze ou quinze canções, mas passou tão depressa que ficou a saber a pouco. Paciência.

Fora do contexto rock n' roll da noite, estiveram os YACHT. Não sabia o que esperar, pois não os conhecia - só sabia terem lançado um álbum pela DFA, por isso devia ser bom. Devia. Um pouco chatinho ao início, melhorou bastante para o final, quando aumentaram a força dos beats e começaram a ir buscar mais à New Wave. O vocalista tenta parecer-se demasiado com o Pelle Almqvist, a vocalista parece-se demasiado com as cópias rascas da Blondie e da Annie Lennox que povoam o mundo indie-dance de hoje. Tocaram uns quarenta minutos: muito pouco para os que tinham dado 7,5€ para os ver só a eles. Eu pelo menos tinha ficado fodido, mas a população hipster parece ter gostado imenso. Enfim.

Grande concerto o de Dale, bom o de Sonics, mediano o de YACHT. Público morno nos concertos rock (sacrilégio!), muita adolescente betinha a pular no outro. Comprei o disco de Orelha Negra em vinil. Andei no metro comboio do Porto. Dormi nos bancos de jardim de um parque na Boavista. Resumindo: tragam essa merda cá para baixo, pá. Ou não tragam: tirava o espírito da coisa.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Hey you, you're losing your Vitamin C



Há uma coisa boa na música ambiente: se a deixarmos como pano de fundo enquanto trabalhamos ou estudamos, podemos ignorá-la à vontade e prosseguir sem problemas, mais relaxados até. Uma nota mais puxada que nos prenda a atenção, pode ser como que uma epifania. O problema só surge quando estamos em espaços fechados e não temos com que nos distrair. Talvez tenha sido esse o problema de hoje: não houve para onde fugir.

Os Tangerine Dream, ressacados da mesma geração de boche-róque (porque krautrock é um termo démodé) que os Kraftwerk, Neu! e Can, são considerados por muitos como os pais do trance. O caso não é para menos: texturas psicadélicas, percussão tribal, e riffs de guitarra roubados ao metal o que me fez pensar por momentos que tinha vindo ver Infected Mushroom. E, se isto me entreteu bastante durante uma hora e pouco, quando começaram a soar as três já era mais do que extenuante. Não sei se será da minha ADHD ou não. Nos concertos pop/rock, podemos entreter-nos a acompanhar a letra, a dar cacetadas nos vizinhos ou pura e simplesmente imaginarmos situações sexuais com a vocalista. Aqui, os sintetizadores de Edgar Froese ocupavam toda a sala. Mais do que o público, que não encheu metade e que só lá estava porque aquilo é tudo muito New Age e os cristais e o Paulo Coelho e blá blá blá. Confesso-me então desiludido. Adoro aquele som electrónico, a pureza retro dos claviolinos, a ambiência Autobahn.

Foi a primeira vez que saí antes do término de um concerto, metade pelo desagrado, metade pelo comboio que tinha de apanhar. Espero que não seja a última, por uma razão muito simples: detestaria ceder a certos fanboyismos e gostar só porque sim. Prefiro manter o meu espírito crítico, e continuar com a opinião de que o Atem é um álbum do caralho. Talvez a cabeça surja mais virada para o lado da apreciação se cá voltarem. Todas as bandas têm direito a uma segunda tentativa.

Menos os Klaxons, em 2007. Que concerto de merda que foi. Foda-se.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Esta é a nossa Golden Week



Que se fodam os exageros, as falsas ironias, as opiniões contrárias: esta é, de facto, a melhor banda de sempre. A mais filha-da-puta, certamente. A mais barulhenta, discutível. A mais psicadélica? Com as drogas certas. Mas nenhum destes adjectivos interessa: para isso existem linhas de baixo repetidas ad nauseam, feedback de fazer corar o próprio Lou Reed e letras tão impercebíveis quanto a voz anasalada do vocalista. Tudo o que se fez na cena punk, todo o espírito DIY, todo o activismo político universitário de '68, todos os cocktails molotov desperdiçados, todas as revoltas de algum ponto no tempo são brincadeiras de criança quando comparadas com isto: o baixista sequestrou um avião e desertou para a Coreia do Norte. PARA A COREIA DO NORTE. Quão mentalmente instável, quão rock n' roll deve um tipo ser para atingir este nível?

Mas essa seria a melhor história do currículo se não fosse pelo currículo itself. Associações com trupes de teatro avant-garde. Espectáculos onde predominavam os decibéis e os flashes de luz ao ponto da epilepsia. Um pretensiosismo proto-hipster-proto-punk-proto-indie-proto-música sem limites. Estes são os Rallizes Dénudés. O pináculo absoluto da psicodelia japonesa. Mundial?

Mais pesados que uma morte na família. Foda-se. Ao ler coisas assim, ao saber que, ainda há poucos anos, uma banda destas existia e depois desapareceu sem deixar rastos, que há-de um tipo pensar? No Hardcore, no Black Metal, no No Wave? Não, não pensa em nada: Night Of The Assassins, The Last One, Enter The Mirror, Smokin' Cigarette Blues... pensam por si. Rock a sério. Sujo. Visceral. Sociopata. Isto é sangue, isto é cabedal negro, isto é a tua mãe a gritar que eras tão bom rapazinho e agora ouves estas coisas tão doidas, ai meu Deus. E estamos a falar de uma mãe que viveu o niilismo punk. E que me apresentou os Sex Pistols.

Aconselhável a fãs de Hawkwind e Burzum. O primeiro minuto da Night Collectors é o prenúncio de tudo o que Varg Vikernes faria anos depois, o resto é a mãe de Silver Machine. Com ou sem ácidos, com headphones ou colunas, apaixonados pelo Japão ou defensores de Hiroshima/Nagasaki: estes são os Rallizes Dénudés. Tratem-nos bem. Salvar-vos-ão muitas vezes.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Foda-se, só agora tive acesso a um PC, caralho



Lisboa, 17 de Março do ano do Senhor de 2010. 22:05, 10 e muitos graus (acho eu...). Foi basicamente este o cenário que encontrei junto à Flur, onde acaba a fila para ver a next big thing (not really): Beach House. Sim, este blog (ou blogue) esteve lá, e pela primeira vez na sua totalidade, com os dois membros a desfilar o seu hipsterismo - apesar de não ser essa a minha intenção, pois só soube que ia ao concerto à última da hora. Por falar em hipsters, esta... comunidade (like the gays) esteve presente em peso, ou não fossem eles os Beach House e não fosse o sítio o Lux. No entanto, o número de pessoas que compreendem a noção de too much era também elevado, por isso o ambiente não era insuportável.

Falando do concerto propriamente dito, lá estava Victoria Legrand em forma de femme fatale de um qualquer filme francês (e pelo menos um coração conquistou... überfofinha). Desfilaram elogios e modéstias (que desejo não serem falsas) de uma banda rendida a um público rendido. Tocaram o que era na minha singela opinião fulcral do último Teen Dream (Lover Of Mine, Norway, Used To Be, entre outras), mas não esqueceram clássicos (já?) como Heart Of Chambers ou Gila. Direito a encore e a mais elogios de uma banda que prevejo vir a ter casa em Alcantâra (expressão favorita para descrever os Ben Harpers e Nouvelle Vagues deste mundo).

Em jeito de resumo: 15€ bem gastos num concerto um pouco curto e num sítio que deixa a desejar para este tipo de evento (mais o raio da coluna, CARALHO). O público esteve lá, os B.H. estiveram muito lá e fez-se a festa, mesmo que em jeito de melancolia. Foi bom, muito bom, o unico problema são os hipsters.

P.S.: Se ainda não perceberam, este não é um blog (ou blogue) hipster-friendly. Provavelmente nunca será a não ser que uma menina dessa tribo nos arrebate o coração. Não é assim tão difícil. Estamos à espera de vocês, meninas comedoras de tofu e consumidoras de vinho italiano que vestem camisas de flanela e usam óculos de massa oversized e têm franjinha e curtem Gainsbourg e são extremamente versadas na arte da ironia. Um pouco assim como nós. Wait... OMFG, SOMOS HIPSTERS

Escrito pelo excelso MonsieurA e enviado por e-mail.

quinta-feira, 18 de março de 2010

And now for something completely sad



Eu tinha avisado que ainda íamos falar de muitos mais artistas do glorioso Nippon. Lamento é que seja desta forma: Jun Seba, a.k.a. Nujabes, a.k.a. o tipo que fez a banda sonora do Samurai Champloo, morreu em Fevereiro na sequência de um acidente de automóvel, diz a Hydeout Productions, a sua editora de sempre.

E é impossível não ficar triste: fora a mencionada soundtrack, ficam para a posteridade Metaphorical Music (na minha modesta opinião um dos melhores álbuns de hip-hop de sempre), Modal Soul e três compilações da Hydeout, trabalhos sempre marcados pelos beats jazzísticos, ambiente chill, o cruzamento quase perfeito entre a lei das ruas e a dos bares sofisticados. Compôs ele Beat Laments The World, lamento eu agora a sua morte. Havendo essa possibilidade, há que enrolar uma e fumar por ele.

O hip-hop ficou mais pobre. Não morreu, mas foi ferido no seu centro. Que não restem dúvidas.