quinta-feira, 18 de março de 2010

And now for something completely sad



Eu tinha avisado que ainda íamos falar de muitos mais artistas do glorioso Nippon. Lamento é que seja desta forma: Jun Seba, a.k.a. Nujabes, a.k.a. o tipo que fez a banda sonora do Samurai Champloo, morreu em Fevereiro na sequência de um acidente de automóvel, diz a Hydeout Productions, a sua editora de sempre.

E é impossível não ficar triste: fora a mencionada soundtrack, ficam para a posteridade Metaphorical Music (na minha modesta opinião um dos melhores álbuns de hip-hop de sempre), Modal Soul e três compilações da Hydeout, trabalhos sempre marcados pelos beats jazzísticos, ambiente chill, o cruzamento quase perfeito entre a lei das ruas e a dos bares sofisticados. Compôs ele Beat Laments The World, lamento eu agora a sua morte. Havendo essa possibilidade, há que enrolar uma e fumar por ele.

O hip-hop ficou mais pobre. Não morreu, mas foi ferido no seu centro. Que não restem dúvidas.

terça-feira, 9 de março de 2010

Macaca Fuscata



Quem nos conhece sabe que temos um certo penchant por tudo o que venha do Japão. Excepto a pornografia com baratas mortas. Oh, sim. Existe. Anyway, ao passo que esse fascínio advirá da nossa pequenina veia de otakus, no que concerne à música há razão de ser: estes tipos exportam material do bom. Um dia haveremos de falar dos Boris ou dos Pizzicato Five; hoje ficamos-nos pelos Mono, um dos últimos grupos a sobreviver ao post-rock.

Numa Musicbox cheia, pôde-se compreender porque razão o Steve Albini gosta deles: são do caralho ao vivo. Já eram do caralho em disco (Hymn To The Immortal Wind é dos melhores do ano passado), mas ao vivo tudo se transforma. Se eu fosse um crítico a sério (não sou) com um emprego a sério (não tenho) usava expressões a sério (não conheço) tipo "OMG SOAM COMO UMA AVALANCHE NO MONTE FUJI". Graças a Deus que tenho este blog, então. Mas quero usar essa expressão de qualquer maneira para descrever a simbiose entre ambos guitarristas, a cadência, o prenúncio apocalíptico (entranham-se-nos nos ouvidos com melodias suaves, explodem em torrentes de ruído). Uma espécie de Agalloch meets MBV. Começam, naturalmente, com Ashes In The Snow, em jeito de apresentação tardia do disco de 2009, alcançam o zénite com Yearning, de You Are There, 2006, e finalizam com Everlasting Light, também de Hymn To..., um final perfeito para uma noite de (ainda) inverno. E com direito a vénia no final, como qualquer bom nipónico. Pelo meio, todo um ambiente construído com duas guitarras, baixo e bateria (ocasionalmente piano e xilofone), um jeito de melancólica saudade, headbanging em câmara lenta - há uma razão, afinal, para o fado ser tão popular em terras orientais. A tristeza é-nos comum.

Antes deles, Löbo (com ümlaut, porque é METAL). Vêm de Setúbal, e Setúbal é bastante fixe. O guitarrista parece constantemente pedrado, o baixista anda a aprender com estes tipos e o baterista... bem, o baterista é gordo. Apresentam (Surpresa! Toda a gente toca isto hoje em dia) um Sludge em jeito ambiente, para não fugir muito ao espírito do concerto. Há momentos interessantes, há momentos chatos. Gostei muito do gajo do sintetizador/sampler a armar-se em Merzbow. Andam por aí a apresentar o primeiro EP, e parecem ter espaço para progredir. Por hoje, não fraquejaram, mas também não morderam. Foda-se, que piada tão má.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Um momento para publicidade

Agarro-me à vã esperança de que alguém lê este blog sem ser eu e o outro atrasado. Assim como me agarro à vã esperança de que alguém ainda compra discos sem ser eu e os tipos daquela bancada na Gare do Oriente. Posto isto, eis uma listinha daquilo que quero fora do meu quarto (por preços simbólicos, sejam eles uma tablete de chocolate ou o segundo LP do Xutos Ao Vivo). IdiotasInteressados de todo o mundo, vinde e ajudai-me a completar a minha colecção dos MBV.

Amor Louco (Comp., Novelas De Merda)
Baby Consuelo, Canceriana Telúrica (Pffft *riso abafado*)
Benito Di Paula - Um Novo Samba, 1974 (Samba)
Brasil! 24 Original Brazilian Songs (Comp., Bossa Nova)
Café do Brasil - Musik Aus Dem Land Des Kaffees (Comp., Samba)
Carlos Puebla - Adelante Portugal, 1978 (LOL WUT)
Cheiro De Amor - Festa, 1989 (Onda Choc)
Degraus Da Fama, 1984 (Parolo)
Escolas de Samba - Enredos 1975 (Comp., Samba)
Elas Por Elas (Comp., Novelas de Merda)
Fafá de Belém - Banho De Cheiro, 1978 (MPB, e grandes tetõesseios na capa)
Flora Purim - Everyday Everynight, 1978 (Pop, Vocal Jazz)
G.R. Mocidade Independente de Padre Miguel, 1975 (Samba)
Gilberto Gil - Luar, 1981 (MPB)
Isidro Baptista e Mónica Paula - Desgarradas De Folclore (Awesome.jpg)
Janita Salomé - A Cantar Ao Sol, 1983 (Lol)
Jorge Ben - Fôrça Bruta, 1970 (MPB)
Jorge Ben - Samba Nova, 1976 (MPB)
Jorge Fontes - Guitarradas Portuguesas
José Mário Branco - A Mãe, 1978 (MPP)
Kaoma - Lambada, 1989 (Ri-me Tanto)
Maria Bethânia - Drama, 1972 (MPB)
Milton Carlos - Samba Quadrado, 1975 (MPB, Samba)
Milton Nascimento - A Barca Dos Amantes, 1986 (MPB)
Milton Nascimento - Caçador De Mim, 1981 (MPB)
Novo Wave Brazil, 1978 (MPB)
Pepeu Gomes - Um Raio Laser, 1980 (Tão Mas Tão Bom)
Rio Fantástico (Comp., Samba)
Roberto Carlos - O Calhambeque, 1984 (Merda)
Roberto Carlos - Roberto Carlos, 1966 (Merda)
Roberto Carlos - Roberto Carlos, 1973 (Merda)
Roberto Carlos - Roberto Carlos Canta Sus Grandes Exitos, 1978 (Adivinhem!)
Roque Santeiro (Comp., Facepalm.jpg)
Sambas-de-Enredo das Escolas de Samba do Grupo I, 1980 (Comp., Samba)
Simone - Cristal, 1985 (Sei Lá)
Sinto - Sonho Negro, 1978 (MPB)
Sting - Nada Como El Sol, 1988 (Lol, Foda-se)
Sud-Amerikanische Romanze (Comp., Merda)
Tânia Maria - Made In New York, 1985 (Pop)
Tchaikovsky's Greatest Hits Vol. 3 (Black Metal)

Informações sobre o estado, o preço, ou malabaristas asiáticos, comentem.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Enxurrada



Podemos argumentar que a Blitz já não é o que era: uma publicação que, anteriormente, dava destaque aos movimentos mais alternativos, ao que de mais interessante se fazia na música nacional ou internacional, deixou a descoberta para segundo plano e passou a fixar-se (no que concerne a artigos, entrevistas, opiniões) em nomes já consagrados - não que isto seja necessariamente mau, mas duas ou três capas por ano com os Metallica enjoa. Porém, lá vão aparecendo algumas quantas pérolas que valem bem os 2,50€. A de hoje custou mais 4,90€, mas isto é irrelevante. Trata-se da compilação E-Spam, da Enchufada, label que deu ao mundo os Buraka e os Macacos do Chinês (quando estes ainda eram bons e não rollavam na Reboleira. Jesus, esse som é horrível).

São 14 faixas, alguns nomes conhecidos, outros nem tanto, e um para acompanhar com atenção no futuro: Paus, experiência noise rock com bateria siamesa (wat?), algo deslocada numa compilação em que a electrónica para dançar é o tema dominante, mas nem por isso menos boa. Mudo e Surdo é para pôr a altos berros e rebentar subwoofers. E se o CD começa bem, segue ainda melhor: Restless é capaz de ser das melhores coisas que os BSS já fizeram. A partir daqui é um festival de beats e basslines: Kitámanda de Roulet é enorme, DJ Riot dá a conhecer a sua faceta dub psicadélica (adoro inventar termos), DJ Znobia ensinou-me a gostar dele, e os Octa Push confirmam o seu novo estatuto superstar no que concerne ao mundo do DJing (o Thom Yorke gosta, logo tem cred). Única poia num mar de rosas: o Kalaf em versão S(oul)poken Word. A sério. Não há pachorra. O homem não sabe escrever. (Eu também não, mas não me pagam.)

Para aficionados da nova tendência para a dança ou das novidades tugas em geral: isto é muito bom. Para pitas de 15 anos que compraram porque, lol, os Tokio Hotel estão na capa do jornal: cuspo-vos nas caras e nos túmulos. Talvez estas compilações sejam a salvação da Blitz. Isso, e mais artigos sobre krautrock. O do mês passado era fraquinho. Como o Leandro Grimi.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Girondins de Croydon



Há-de chegar o dia em que toda a gente se aperceberá de que esta é uma verdade única e absoluta: os Saint Etienne são a melhor banda pop de sempre. "Ah, mas todas as opiniões sobre música são subjectivas". ERRADO. Achar que o Tony Carreira tem boa voz é subjectivo. Não gostar dos beats suaves, do açúcar na voz da Sarah Cracknell ou da melhor cover de sempre, é estúpido. Isto não tem discussão possível. Olhemos para a sua árvore genealógica: filhos da geração ácido, pais da britpop, irmãos de sangue das compilações do Café Del Mar. Tudo bom. Tudo pop. Tudo awesome. Há uma razão para 1991 ter sido dos melhores anos no que concerne à música, e essa razão é Foxbase Alpha. (E o Loveless, o Nevermind e o Screamadelica, etc.). Única mancha (pequenina, pequenina) no currículo: o Postiga ter jogado no clube que lhes dá nome.

Agora que o verão se aprochega (lol, expressões dos avós), é deitar as mãos a London Conversations e mergulhar de cabeça. Resumo quase completo das actividades dos Saint Etienne - está lá Only Love..., Like A Motorway, He's On The Phone, People Get Real, Shower Scene. Desafio qualquer um a não cantar isto no chuveiro. E para todos aqueles que acham que isto é apenas uma cópia indie do eurodance, odeio-vos, morram num incêndio. Se bem que o Ingrosso ou qualquer outro merdas famoso teria muito mais interesse se passasse isto em vez da Show Me Love pela 3765ª vez. Além de que estaria a educar muito boa (ou não) gente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ié-ié-manjá



Não há carnaval sem samba. E não há samba sem umbanda, pelo menos no que concerne a este disco. Vindo não se sabe muito bem de onde (V Festival Nacional de Cantigas de Umbanda, 1977), aterrou-me aqui no gira-discos e mostrou-me todo um mundo para lá das mulheres nuas: rezas a Xangô, Iemanjá e outros deuses com nomes esquisitos, ritmos tribais dos quais, se eu quisesse mandar atoardas para o ar, diria que são os precursores de toda a história techno. Não é só um disco de samba, é um disco para chamar espíritos. Havendo essa hipótese, é fazê-la acompanhar (à audição) de um jogo do copo à meia-noite. Metaleiros também verão aqui a inspiração da Ratamahatta dos Sepultura - claro que me esqueço que sou o único que acha o Roots o melhor álbum deles, mas enfim. Flôres de Obaluê, quase quase parecido com um vira, é a canção que sobressai mais aqui, mas ao longo do pouco menos de meia-hora, o ritmo fala mais que as palavras. É um pouco da história do Brasil que aqui se condensa: sempre preferiram dançar a lutar.

É tal qual o house: se ao ouvirem não houver uma única parte do vosso corpo a mexer, isto não é para vocês. Mas podem guardá-lo no disco rígido à mesma, se o encontrarem por aí: dá indie cred. Tupã é que não vos vai achar muita piada ao desrespeito, mas é para isso que existem rosários e crucifixos e todas essas coisas que vos garantem uma cadeira no céu. O fodido é vocês lá irem acabar sentados enquanto o mundo dança.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Who loves the Sunn



Os Sunn O))) não são uma banda. São um terramoto. Julguei que aquela casa não aguentaria o vómito imenso que saiu dos amplificadores, mas aconteceu. Não obstante esta pequena desilusão sádica, bom espectáculo o proporcionado hoje na LX Factory. E digo "espectáculo" e não "concerto" porque é sobejamente (eish) mais interessante ver a forma como se apresentam em palco (minúsculo, rodeado de amplificadores, cheio de fumo, e ar de gregorianos do inferno) do que ouvir um acorde repetido à exaustão (também é giro). No meio de tudo, Attila Csihar: Deus absoluto entre vocalistas do metal extremo e agora também entre estilistas. Tocaram ao que parece três temas (houve duas pausas, por isso julgo terem sido três), a fórmula sempre a mesma: drones muitos, umas experiências no teclado ou no trombone, Attila. No final um agradecimento sentido gutural à multidão (negrume quase completo) e alguém levou para casa meia garrafa de vinho.

Antes de terminar, Eagle Twin. Falta-lhes algo em disco que têm ao vivo: violência. São dois, guitarrista e baterista, não precisam de mais. Saídos da herança dos Melvins, apresentaram um Sludge contínuo (algo raro, um concerto em que não haja pausas para aplausos), pesado sempre, proporcionaram os únicos momentos de headbanging da noite, obrigaram-me a sacar dos tampões logo nos primeiros 15 minutos. Isso, e porque sou um conas.