segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SOL SOL SOL SOL SOL SOL SOL



Dan Snaith é um matemático. Nota-se pelo minucioso tratamento que dá ao Korg e à caixa de efeitos. Nota-se na energia filhadaputa do baterista que o acompanha como um metrónomo bem oleado. Nota-se nos números imaginários vulgo os outros dois gajos lá no fundo a tapar mais ou menos as fractais psicadélicas que vão surgindo. Nota-se quando, ao começar com Kaili, faz com que toda a gente de imediato desprenda os pés do chão e ceda o corpo às ondas de choque que se fazem sentir, o Lux a tremer como se num enorme terramoto, oito ponto dois à escala de Caribou.

Porque é de Caribou que se fala: do brilhante Swim, editado este ano, de temas como Found Out ou Bowls, do clássico instantâneo que foi/é Melody Day ou do imenso gingar drogado ali a inventar o Kanuckrock porque é fixe dar novos nomes às coisas de Sun, transformada em dez colossais minutos de dança e headbanging; foi o concerto que fechou o ano para os Caribou, foi o concerto que faltava a este ano onde tantas coisas boas passaram por cá. O sol quando nasce é realmente para todos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

We're all fucked up, so whacha wanna do



Há males que vêm por bem; se a visita do Moisés negro impediu que os Arcade Fire pudessem vir espalhar o amor, os Fucked Up, que também são canadianos, espalharam a semente; mandaram foder os azares da vida e marcaram, não um, mas dois concertos exclusivos em Lisboa e Porto como que a pedir desculpa por aquilo de que não têm culpa. Bendita a hora: milhões de vezes a ZdB do que o Pavilhão Atlântico no que toca a albergar concertos de rock n' roll fodido. No aquário, cheio de gente mais ou menos desnuda, incluindo o próprio Damien Abraham, que é gordo e punk dos sete pneus, os Arcade Fire não passaram de um sonho passageiro; bastaram os primeiros acordes de "Son The Father" para deitar a casa abaixo e fazer temer pelo vidro partido não se sabe muito bem quando.

Antes disso Mr. Miyagi deu uma aula de karate aos presentes apresentando um hardcore a fugir para o grind, sem guturais mas com muitos gritos e putos de flanela e t-shirts pretas a saltaram de e para o palco. São quatro gajos do norte, com ar de quem dariam bons genros mas com a electricidade a correr na ponta dos dedos. E da gaita. Isto já não saberei. São um bocadito aborrecidos, mas a malta curte e a gente está lá é para curtir. Houve pedidos para tocarem "aquela" e tudo.

Os Fucked Up são os legítimos herdeiros dos Black Flag. Isto é um exagero do caralho, mas ocorreu-se-me dizer isto no regresso a casa à cara-metade deste blog só para o picar por não ter ido. A baixista é arraçada de portugueses e veste-se como uma avó, a.k.a. ia lá com tudo. Damien corre pelo local munido do microfone, abraça quem encontra à frente, placa quem encontra à frente, grita com quem encontra à frente, exibe-se (mas só o tronco) a quem encontra à frente. O rock é pesado, com tendências para o frito (ele até dizia estar ligeiramente apanhado, se é que me entendem). Estranhamente, as maiores intervenções por parte do público - que no entanto nunca se cansou dos empurrões e cotoveladas - surgem nas covers de Breed, dos Nirvana, e do hino generacional que é a Blitzkrieg Bop dos Ramones. Isto será sintomático de muita coisa, mas não me apetece dissertar sobre isso. Foi do caralho, fiquei com a setlist (sim, é essa coisa aí em cima!) e quero que vocês se fodam. Como a banda apela a que façam.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dores de dentes



Nos dias que antecederam o concerto dos Faust, quem andou nas bocas de quem aguardava impacientemente pela noite de hoje foi Julian Cope. Por ter dito, no ido Krautrocksampler, de 1995, que "não havia grupo mais mítico que os Faust". Absolutamente normal, então, que quiséssemos confirmar esse testemunho.

Comecemos por dizer que os Faust não são uma banda. São uma sociedade. Uma sociedade caótica, despojada da sua civilização, onde estranhos seres despejam bílis fermentada em forma ténue de canção pop/rock. Antes de entrarmos por caminhos etimológicos de almas vendidas a Satã, convém dizer que "Faust" é alemão para "punho". Esse mesmo reproduzido na sua forma mais crua, óssea, em vários discos dos alemães. Esse mesmo, que à primeira visão do palco onde baterias à base de bidões nos atinge no rosto de uma forma que não esperaríamos, não enquanto não houvesse um som no ar.

A introdução é feita na voz de Tiago Gomes, um apelo à "urgência pela liberdade", um assegurar de que o público estaria autorizado a tudo, fosse "tudo" filmar, fotografar ou dançar, e um convite para uma salutar convivência com os membros da banda posterior ao concerto, antes de enveredar por uma história qualquer sobre mulheres em restaurantes, que não interessa para nada: todos os olhos já estavam postos naquele estranho casal de gigante e anão que se entretinham cada qual na sua bateria a marcar o ritmo. Prontamente entramos no mundo dos Faust, essa monstruosidade tribal e eléctrica, olhos no primitivo e no moderno.

Se durante os primeiros temas parecia mal ficar sentado perante a avalanche rock n' roll, a introdução de um momento spoken word com acompanhamento de pintura fê-lo esquecer por uns momentos - e chegou a arrepiar. O medo perdeu-se em J'ai Mal Aux Dents, que a meio se transformou em Shempal Buddha, virtude da anedota já várias vezes contada envolvendo um fã norte-americano.

Arriscamos dizer: se no mundo reinasse a anarquia, todas as bandas seriam como os Faust. E maravilhoso seria falar da música escondida numa betoneira, no cair de pedras sobre o palco ou nas faíscas que saltavam do metal. Mas também haveria espaço para as guitarras, e não existiriam problemas no PA - bem gritou James Johnston, mas play it fucking loud! foi algo que faltou. Mas não faltou nem um alegre membro do público a dançar nestas altercações psicadélico-industriais nem o autor da frase anterior; uma versão (se é que se pode apelidar de tal) de A Hard Rain's A-Gonna Fall com acompanhamento de berbequim serviu de entrada a Krautrock, a tal canção que definiu o género que definiu a canção, antes dos Faust saírem do palco e regressarem para o merecido e ansiado encore, terminando finalmente o concerto com a minimalista Mamie Is Blue. Que dizer, então, depois desta experiência? Nada. Aplaudir de pé, como o fizeram os muitos presentes no Maria Matos. Não será todos os dias, nem sequer anos, que teremos outra oportunidade destas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ninja Sardine



Para quem não sabe, a Ninja Tune faz vinte anos. E o que é a Ninja Tune? Bem, nada mais nada menos que a editora que deu ao mundo o hip-hop cerebral de Amon Tobin ou os grandes Cinematic Orchestra. E porque é que é importante falar hoje da Ninja Tune? Porque fazem 20 anos, estúpido do caralho, não leste a primeira frase? Adiante: qual Jesus Cristo no 25/12, a editora decidiu dar-nos a nós, pobres ouvintes sedentos, um tratado de tudo o que representam na cena electrónica actual: uma compilação de sete horas (não é para meninos) onde artistas tão diversos como Diplo, Roots Manuva, Bonobo, os dois mencionados anteriormente, Jaga Jazzist ou Zomby emprestam algumas das suas melhores mixes e faixas exclusivas em jeito de festa. Hip e Trip, dancehall, dub, acid, pimba, vem lá tudo representado. É só escolher.

Agora era a parte em que eu recomendava faixas individuais para dar um gostinho da coisa, mas que se foda: ouçam tudo. TUDO. Todos os seis discos. De preferência em volume invulgarmente alto, para darem também a conhecer aos vizinhos (ou partir-lhes os vidros e os tímpanos com o p-o-d-e-r daqueles graves). Não se esqueçam de enrolar uns quantos em jeito de sacrifício ao Deus do beat. Obviamente que um bombom destes é coisa para custar um balúrdio, mas para isso é que existe a internet, amirite? No blog mais famoso do mundo. Googlem. Não digo mais nada, porque tenho príncipios morais.

domingo, 19 de setembro de 2010

Há Festa Na Mouraria



As relações amor-ódio são parte integrante não só da cultura musical de cada um como da sociedade em que vivemos. Claro que por vezes podem desvanecer: por exemplo, eu odiava o Puto Sam até ouvir os Orelha Negra - isto para dar um exemplo de ódio->amor no que concerne à música - e continuo a odiar o Benfica - isto para dar um exemplo de ódio->ódio eterno no que concerne à sociedade. Com B Fachada é igual: há quem o considere o melhor letrista português dos últimos 30 anos (o que é, francamente, uma opinião estúpida), há quem lhe odeie o pretensiosismo e os maneirismos (o que é, francamente, igualmente estúpido).

Centremo-nos em dois pontos. Primeiro, as canções são realmente boas (Eu vou ser o puto Abrantes, eu vou ser o Panda Bear foi o grito de guerra deste verão), a personalidade é, estando atento, um falso auto-elogio. É óbvio que de B Fachada tudo indica para que seja um troll. Quem o encara como tal encontra-lhe nos discos um humor blasé que o levou a ser a estrela do novo anúncio do azeite Gallo, que é tipo a epítome do trolling, quem não vai nas suas cantigas, perde as cantigas (trocadilho ridículo mas cheio de verdade).

Mas eu não tenho que estar aqui a defender a genialidade ou falta dela de B Fachada. Fico pelos discos (o último EP ainda está disponível aqui) e pelos concertos, como o de hoje no Clube Ferroviário, em Santa Apolónia, com vista para o mar e para a cidade, repleto de gente (e de muitos hipsters que se enquadram naquele primeiro grupo de idiotas de que falei em cima), onde estiveram canções como Os Discos Do Sérgio Godinho, onde esteve a fabulástica camisa que segundo dizem já havia levado ao Avante, e onde esteve o contrabaixista do 5 Para A Meia-Noite do qual ninguém quer saber. E foi grande, como grande é o Bernardo. Perante isto, que mais dizer? Fazem falta mais trolls assim.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

M.T.V. - Get Off The Air



Como devem ou não saber, a música pop é uma merda. A culpa é, obviamente, nossa. Nossa, Portugueses, não nossa, consumidores. E agora vocês perguntam: "lol dude arranja dessa merda que fumaste". E eu arranjo na boa, peçam-me no Facebook. E depois de estarem completamente desviados, perguntam: "mas afinal como é que nós, Portugueses, temos a culpa da música pop ser uma merda, se o David Fonseca só tem uns 15 anos de carreira?". E é aí que eu explico e vos garanto que a vossa mente vai explodir.

Ponto no. 1: o Justin Bieber é uma merda. Facto. As meninas de três anos gostam, ergo, é merda. E quem gerou o Justin Bieber? As grandes empresas capitalistas que decidiram apostar no mercado da música para teenagers. Porque, e não neguem, o nosso gosto musical mais ou menos até aos doze anos é uma merda. Culpa nossa? Não: culpa dos nossos pais, que nos compravam os CDs de Limp Bizkit e artistas af(em)in(ado)s para que pudéssemos ter o que eles não tiveram: algo para além da Amália. Esta forma de pensar é culpa dos psicólogos, mas não abordemos esse lado. Dizia então que o Justin Bieber é uma merda. Quem gerou o Justin Bieber?

Em todos os pontos da história da pop moderna existiram grupos de rapazes bonitos que geraram bandas multimilionárias. Os pontos de contacto mais recente com o atrasado do canadiano são, obviamente, os Backstreet Boys e os Take That - que são quiçá os nomes mais out-of-the-closet de sempre; vá lá, rapazes da rua de trás? Até o Carlos Cruz se riu. E depois meteu mais um recurso. Mas, e a geração de hoje que é a minha não se lembra, antes desses dois existiram os New Kids On The Block. Que, por alguma razão inexplicável e validatória do ponto de vista de que Deus não existe, decidiram reunir-se e voltar a dar concertos. E o mundo facepalmou.

Recuemos ainda mais. Lembram-se dos Menudo? Não, não a nova geração daquele programa da MTV que eu nunca vi, juro. Os dos anos 70/80, que tiveram nas suas fileiras a mais recente contratação do movimento LGBT, o Ricky Martin (bem, não é grande contratação quando toda a gente já tinha a ideia do clube em que ele jogava). Os Menudo eram uma banda fabulástica de Porto Rico que agradava bastante às meninas de então. Só que estes chicos não seriam nada se não fosse a influência daquela que é provavelmente a última boys band (ou banda de rapazes, se quisermos entrar em FlorCaveirismos) que fez, de facto, canções de jeito. Vocês conhecem-nos. Viram o Shrek. Certo que na voz dos saudosos Smash Mouth, mas conhecem:

Os Monkees. Os Monkees eram fantásticos. Os Monkees eram do punk: mesmo sendo um offshoot da indústria, odiavam a indústria. Os Sex Pistols fizeram uma cover de uma canção deles. Têm cred. Foram, repetindo-me, a última banda de rapazes a ter cred. Nasceram em 1965, como resposta aos... querem adivinhar? Por esta altura já devem estar a pensar onde é que eu vou parar com estes argumentos, mas garanto-vos que não se vão arrepender. Acho eu. Se se arrependerem podem dar-me porrada. Ou parar agora e ir ler um livro, fazer alguma coisa de produtivo.

Ainda comigo? Óptimo. Como eu dizia, os Monkees foram a resposta à maior, melhor, mais popular das bandas: os Beatles themselves. Os Beatles eram (e são) um bocado como o Benfica: conquistaram muitos fãs nos anos 60, mas a partir daí o mundo acordou e descobriu coisas melhores, e agora só permanecem com o estatuto "melhor cena de sempre" na cabeça de gente velha e aborrecida. Não que eu deixe de fritar completamente com a I Am The Walrus ou a Tomorrow Never Knows. Mas antes de darem na droga (abençoada), os Beatles só existiam para molhar cuequinhas adolescentes. Moda que teve precursor em quem?

Rei do rock, ou aborto gordo em cima de um palco: Elvis Presley tem duas personas distintas. Aquela que interessa para o caso chocou os E.U.A. puritanos dos fifties quando surgiu a abanar a anca e a cantar música negra, a única que interessava. And lo, panties were soiled. Aos 20 anos, era bonito, tinha boa voz, e mexia-se como um doido. Centremo-nos na música: o rock n' roll começava a dar os primeiros passos, Chuck Berry e Little Richard criavam canções intemporais e os blues antigos eram já uma miragem; o dia em que o homem branco começou a cantar música negra foi a morte da música.

E de onde vieram os blues? Da América segregada onde os linchamentos do KKK eram coisa corrente, porque afinal de coisas, não se pode deixar que esses pretos de merda toquem nas nossas filhas, amirite? Livres da escravatura, mas sem condições sociais, expurgavam as agruras da vida em guitarras. Robert Johnson, por ser o nome mais associado ao rock, é o mais falado hoje, mas não devemos negar, nunca, a beleza das vozes femininas: Bessie Smith, Sister Rosetta Tharpe, Ma Rainey. Para além de, claro está, Bo Diddley (que é Jesus), Blind Willie Johnson, Son House.

Resumindo então: os blues só existiram porque existiu segregação, e a segregação só existiu porque existiu escravatura. E de onde vieram os escravos? Maioritariamente de África, claro está, porque os nativos eram fortes, trabalhavam bem, e as mulheres negras tinham bundões maiores para os branquelas ricos se divertirem e fazerem bastardozinhos. A exploração do continente, que hoje mudou das mãos ocidentais para as dos chineses, durou (e dura há) séculos. E, terminando o longo raciocínio, devemos essa exploração, e as inúmeras descobertas que a precederam, a quem?



Exacto: a este filho da puta. Tudo bem que tinhas um sonho, Henrique. Que o mar é belo, que a Mensagem que influenciaste é o melhor poema de sempre, que fomos um país a sério durante uns tempos, mas diz-me, Henrique, alguma vez paraste para pensar nas consequências? Claro que não, Henrique, não pensaste. No teu tempo quem quisesse ser famoso tocava alaúde. Nunca te passou pela cabeça que à tua pala milhares de negros fossem tratados abaixo de animal e que estes se vingassem inventando música apelativa, pois não, Henrique?

Era quem te tivesse fodido a tromba e dado de comer a um espanhol. Foda-se.

Terminada a lição de história, uma nota de esperança: nem tudo o que há na MTV é simplesmente mau. Há coisas péssimas. Mas, graças ao poder mágico da internet, até um bolo de merda pode ser transformado num diamante. Esta notícia tem umas semanas, mas há que continuar a realçar: U Smile, Justin Bieber a velocidade oito vezes reduzida, é a melhor malha do ano. É tão boa que ao ouvir todos os 35 minutos deste épico nos esquecemos de que a escravatura existiu. É tão bom que Brian Eno e os Sigur Rós já pediram indicações ao rapazito. É tão bom que, epá, sei lá, milhões de corações. Escutai. Senti. E ao terminar, olhem para cima e contemplem a face de Deus. A não ser que o vizinho de cima esteja na hora do cigarro. É sempre chato quando isso acontece.

Tanta merda só para vos mostrar esta tanga, hein? Nunca mais me leiam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sappy



Ainda parece ter sido ontem.

Lembro-me de uma das primeiras vezes que vi e ouvi a Smells Like Teen Spirit na (então imprescindível) MTV. Tinha oito, nove anos, passaram-na imediatamente antes da Self Esteem dos Offspring e creio que de um episódio de Beavis & Butthead. Como é normal, naqueles tempos todos os nascidos em pós 85 não ligavam à música, mas aos jogos de bola até se acenderem os candeeiros indicando a hora de ir para casa, às Mega Drives onde o Sonic era presença constante, à Cartoon Network e às primeiras revistas onde senhoras mais velhas sorriam enquanto seguravam em pilinhas. Como todas as infâncias de todos os períodos e gerações, foram os tempos mais felizes das nossas vidas. Isso das guitarras e essas coisas ficavam a cargo geralmente dos irmãos ou irmãs mais velhas que ouviam Metallica; as nossas canções eram as do Eurodance trauteável ou a cassete dos Onda Choc que por algum motivo nunca se estragava. Não se sabia o que era flanela. Nem grunge. Nem Nirvana. Sim, gritar num inglês infantil with the lights out, it's less dangerous, sem saber o que raio quereria dizer, era hilariante. Apenas isso. Nada de lhe atribuir qualquer outro sentido, deprimente ou depressivo, de um estado de espírito Geração X.

Não me lembro da morte de Kurt Cobain. Lembro-me perfeitamente da de Ayrton Senna, ou de um anúncio da RTP de prevenção aos incêndios florestais em que uma árvore ardia ao som de What A Wonderful World (ainda hoje, muito por culpa desse anúncio, a canção é-me absurdamente triste), ou da loucura que foram os Tazos. Não me lembro da morte que marcou um fim generacional, um vazio existencial nas cabeças de então adolescentes. É-me estranho que hoje, ao ouvir os Nirvana e saber que Cobain morreu, esse vazio lá esteja. Não sou adolescente, ou prestes a sair disso. Comecei a ouvir seriamente música, late bloomer, aos 17. Não diria que 1991: The Year Punk Broke é um dos filmes da minha vida.

A tendência retro terá uma explicação para isto. Somos levamos, como referido anteriormente, a crer que a nossa infância foram os melhores anos da nossa vida, e que há que repeti-los ou, pelo menos, emulá-los. Porque razão?

Haverá uma explicação puramente psicológica ou antropológica para isto.

Fora da explicação, do sentimento maníaco ou da ideia de que a expressão punk broke significará tanto que o punk se partiu e se espalhou por todo o lado como que se partiu e desvaneceu em mil pedaços; dizer que os Nirvana foram a última grande Banda, com maiúscula, que nunca mais, culpa da geração que se lhe seguiu, existirá outra que alcance tal lugar, sem falar apenas e só do som, é plagiar todos os demais textos que já foram escritos sobre o tema, é querer ser mais papista do que os papas que os viveram em primeiro plano. Por ser plágio, que o é, deixará de ser verdade, porque o é?

Endeusar Cobain, que nunca quis ser mais que um miúdo, é insultar a sua memória?

Não querer ser mais que miúdos, é insultar a nossa?

Não se pode recriar ou reviver a história. Os Nirvana continuarão para sempre naquele plano inalcançável do what if... e é isso que faz que continuem a ter fãs, ano após ano, geração após geração. Nada de errado com isso. O espírito adolescente é um organismo mutável, variando consoante a época. Odiaremos para sempre a escola, escreveremos sempre poemas sobre caixas em forma de coração, a depressão que nos é característica (e existe, por mais fortes que queiramos ser) terá sempre em I Hate Myself And Want To Die um grito de apatia - a guerra interior. Deveremos agradecer-lhes, a eles e ao movimento grunge, verdadeiro abcesso punk por, mais que ninguém, nos terem feito contemplar a nossa própria mortalidade? Ou deveremos castigá-los?

Deveremos simplesmente crescer e esquecer?

Ou aceitarmo-nos e crescer?

Hoje é noite de desejo uterino. Meditemos.